terça-feira, 30 de dezembro de 2014

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Canção intermitente

No Natal va-
mos pensar 
nos artistas e intermitentes

Têm, claro,
de pagar
impostos e tal mas são diferentes

(Declaração de interesses:
eu também sou um desses)

Num mês ganham
zero e ainda
pagam segurança social

“'Tá-se bem”, “vo-
cê é linda”
mas isto está muito mal

(Não é propriamente um poema:
é só que isso não é sistema)

Sem o pensar da imaginação
um país é só um terreno
artista não quer dizer malandro
e o país já não é sereno
— felizmente 

Começar a
levantar
um modelo justo e realista?

Neste Natal, va-
mos pensar
no intermitente e artista


(dá para ouvir aqui)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Aviões em terra

Lá se diz
Como é?
“Aviões em terra
Tempestade no horário nobre”

Sim, um país
Sem fé
Nos mais altos voos
Condena-se a ser um país pobre

(refrão:)
A greve faz aterrar
A questão que ia já nas nuvens
Sobre porquê privatizar

Para quê
A ameaça
De requisição civil
Se acham que a TAP não é essencial?

Os senhores
Da troika
Lançam-nos downhill
E o governo corta asas a Portugal

(refrão)


(dá para ouvir aqui)

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Senhora Doutora Cassandra

Hoje o programa de Leituras no Mosteiro propõe uma reunião de Cassandras. O meu texto — escrito para encenação de Nuno M Cardoso e interpretação de Leonor Keil — junta-se a outras peças curtas de dramaturgos portugueses. Muita merda aí, Senhora Doutora Cassandra!

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Postal de Natal

Chegados ao Natal
talvez não seja mal
abrir uma comissão
de inquérito ao capitalismo
iguais a reis, iremos nus

Há trabalho escravo
nos nossos telemóveis
damos uma no cravo
e outra nos impossíveis?

(Amen)

Só espelhos em redor
prisioneiros do amor
o nosso por nós, ah pois
tão confortável conformismo
o quê, perder a alma sem uns

óculos de marca?
Belos frios infernos
pra bela gente fraca
presa nos espelhos

(Amen)

Está lá
excelentíssimo Karl Marx
espécie de anti-Pai Natal?

Dou a outra face
não me dê a mesma foice
foi-se o fim do tempo, pois
e afinal o que é que ficou depois

Diz, Democracia
onde a alegria
onde a esperança
para haver mudança?



(dá para ouvir aqui)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Contra a austeridade, alegria, alegria

Ouso sugerir que, quando António Costa levar o pacote da reestruturação da dívida à Comissão Europeia, vá com um sorriso na cara e este Shakespeare na manga: "The robb'd that smiles, steals something from the thief,/ He robs himself, that spends a bootless grief."

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Cante canhoto

Há pormenores gigantes
e este fosso tão fundo
há ganhar as eleições
e também mudar o mundo

Costa falou muito bem
pra esperançar Portugal
falta resolver lá fora
o tratado orçamental

Dizer que não à direita
é bom senso e qualidade
há que ser claro e pôr fora
quem pôs dentro a austeridade

Dizer à extrema esquerda
que não fique p’lo protesto
é bem jogado mas muito
irrealista de resto

O PC é o que é
e o Bloco o que já não
resta o Livre, a ver
se tem mão pra dar a mão

Deixar o europeísmo
à direita é profundo
erro à esquerda que só
ajuda a trancar o mundo

De Mangabeira Unger
deixo cá a citação
sobre o que a esquerda sim
e sobre o que a esquerda não

Não é pra humanizar,
diz ele, a sociedade
é para divinizar
toda a humanidade


(dá para ouvir aqui)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

À espera da conferência

Dia 9, às 18.30h, estarei na Casa Fernando Pessoa À espera da conferência.


Um escritor português põe-se a fazer uma conferência sobre a peça À espera de Godot de Samuel Beckett e a coisa complica-se. Com os pés bem assentes no texto, o escritor tenta olhar o horizonte que Beckett abriu, mas vai-se enterrando mais e mais. Lança questões para um lado e para o outro, sempre à procura de um gancho qualquer, alguma coisa a que se possa agarrar para se manter à superfície. Ato I, ato II, tradução, citação, passa pelos mesmos lugares uma e outra vez a ver se descobre algo de novo, algo que ilumine o mistério de uma vez por todas. Mas tudo é sempre mais novo e estranho. Como atravessar hoje este texto? Será batota responder a uma pergunta com uma pergunta nova?

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Viva o cante

Em cima da hora

No Estado suspeitas de corrupção
Inocentes até prova de que não

Os mais altos cargos, maior gravidade
É preciso dar a ver a vera verdade

O ponto a que isto chegou
Será esta, como diz no Observador o historiador Rui Ramos,
“A hora mais perigosa do regime”?

E fazer desta hora
Agora algo novo
E se a política fosse
Servir o povo?

Tabloidismo, justicialismo, aproveitamento
Antes de cada palavra, pensar um momento

Separação de poderes para separar os podres
Sob a luz da lei não pode haver fracos nem fortes

O soundbyte não cabe no verso
Este é, como escreve no Expresso Daniel Oliveira,
Um teste “mesmo grave” para todos

E fazer desta hora
Agora algo novo
E se a política fosse
Servir o povo?




(dá para ouvir aqui

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Jornal Local: amadores

Junto ao rio, no Cais do Sodré, o atleta amador passa a correr pelo pescador amador. Chove forte e o atleta vai completamente encharcado. Jornal Local estava lá para registar. O pescador segue o atleta com o olhar e atira, "Assim já vai com a roupa lavada!"

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

O bezerro gold

Já caiu um ministro
Mas o que é que é isto?

Pão c'o diabo amassou
São os vistos gold

O estilo submarino
Juntou-se ao casino

A soberania escorregou
Vestida de gold

O bezerro de ouro berra em chinês
Português com sotaque de milhões de cifrões

Dar aos ricos o que não
Se dá aos outros — não

Escolheu isso quem legislou
Com vista para o gold

Esta tecnoforma de estar na política
Já passou a zona crítica, vai, demente, em fuga pr’à frente

Já caiu um ministro?
É urgente o resto

Dar a voz já ao povo
Aí não há vistos gold



(dá para ouvir aqui)

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Reportagem 12


"...A perfeição exaustiva e absoluta do conceito, na prática, pode coincidir, acaba mesmo por ter que coincidir com uma disfunção crónica e uma fragilidade intrínseca." (W.G. Sebald)

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

O relógio de cuco

Diz o Presidente
“As eleições serão
na data prevista
e ponto final”
Muito interessante
uma tal visão
tão positivista
sobre o seu papel

(refrão:)
Do muito, fazer pouco
Ver assim a presidência
Como um relógio de cuco

O regime semi-
presidencialista
pede mais do que um
semipresidente
Não é ser assim
anticavaquista
mas falta alguém menos,
digamos, ausente

(refrão)

Diz-se não-político
mas segura a men-
tira “irrevogável”
(esqueletos no armário)
Em estado crítico
está o país todo
e o PR, estável,
cumpre calendário

(refrão)




(dá para ouvir aqui)


quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Um poema de Manoel de Barros


Sujeito


Usava um Dicionário do Ordinário
com 11 palavras de joelhos
inclusive bestego. Posava de esterco
para 13 adjetivos familiares,
inclusive bêbado.
Ia entre azul e sarjetas.
Tinha a voz de chão podre.
Tocava a fome a 12 bocas. 
E achava mais importante fundar um verso
do que uma Usina Atômica!
Era um sujeito ordinário.



sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Soul europeísta

Caro Mario Draghi, prego
Não ouças os falcões
Esses economistas alemães
Que querem que de Tallin a Cascais
Seja tudo um imenso Bundesbank

Cher Jean-Claude Juncker, please
Solidariedade
É só o que precisamos na verdade
Se o todo ainda é maior que a parte
E se a Europa é mais do que o Bundesbank

As periferias não são indigentes
Grécia, Espanha, Portugal e Irlanda
Tiveram crises bastante diferentes
As periferias não são caloteiras
A lógica que no euro ainda manda
É que está tristemente assente em asneiras

Herr Martin Schulz, bitte
Queremos democracia
Política e ideologia
Contra o populismo, a tecnocracia
A tabloidização e o Bundesbank 




(dá para ouvir aqui)



quinta-feira, 6 de novembro de 2014

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O IRS, pois

Como é que uma boa ideia
Se torna uma coisa feia?
No IRS basta olhar
Para o quociente familiar
Pois

Cortar nas prestações sociais
Para aos casais com filhos dar mais
Ajuda que natalidade?
Aumenta mas é a desigualdade
Pois

Quando nos perguntarem se queremos ser
Taxados pela lei de 2014 ou de 2015
Acho que devemos responder em coro
Que o que queremos é regressar ao futuro

Quanto à devolução da sobretaxa
Caro ouvinte, o que é que acha?
Ou estou muito enganado
Ou é para esperar sentado
Pois

Sem dinheiro, não se gasta ou investe
Com austeridade, a economia não cresce
Sem esperança, há depressão
Sem horizonte, resta a emigração
Não


(dá para ouvir aqui)

terça-feira, 28 de outubro de 2014

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Vírgulas para os olhos

Dois vírgula cinco ou
Dois vírgula sete
Não está aí a questão — não

A questão é a austeridade
Matar a possibilidade
De sermos quem somos
Eu, tu, o país

Entre o que se faz e
O que se promete
Cabe um camião — não

Um milhão de camiões repletos
Dos mais tristes decretos
Somos mais do que isto
Como é que se diz

“Futuro” em bom português
Como é que se diz?

Por trás deste orçamento
Que ideia se esconde?
Cortar na educação — são

Uns milhões de desinvestimento
Alto défice de pensamento
Que há que contrariar
Eu, tu, o país

Oh não nos atirem mais
Vírgulas para os olhos
É muito clara a opção — não

Dão ouvidos aos keynesianos
Insistem nos enganos
Mais flores pr’às eleições
Mas o país diz

Futuro em bom português
Não se fará com vocês



(dá para ouvir aqui)






quinta-feira, 23 de outubro de 2014

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Dailies

Por fim, começar. Som, câmara, ação. O cinema como forma de pôr o real em cena. 

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Degolações/Drones

Degolações barra drones
Drones barra degolações

Reza a lenda que, quando Orfeu foi decapitado, a sua cabeça continuou a cantar
Por cima do mar
É difícil, é tremendo, mas temos de aprender a parar 
E ouvir 
O que nos dizem as pessoas degoladas na Síria, no Iraque
No vídeo no ar

E no entanto os drones deixam muito a desejar 
Eticamente
Democraticamente
Já para não falar, como bem lembra DeBrabander no New York Times, de questões de honra  
E glória 
E da crueldade que vem da desconexão 

E eu pergunto:
Contra a pornografia do horror
A nossa resposta é a morte como jogo de computador? 



(dá para ouvir aqui)

domingo, 12 de outubro de 2014

Aqui e na China

Passos Coelho
Não disse muito
E disse tarde
Mas não é esse o assunto
O problema aqui
Não é de forma
É a Tecnoforma

Como nos diz
Pacheco Pereira
Estas empresas
São uma maneira
De obter negócios
Doutra forma
É a Tecnoforma

(refrão:)
O essencial é o que não se vê
E se fizéssemos uma ONG
Pra nós, só pra nós

A grande coragem
De cada dia
Vos leve até
À democracia
Hong-Kong abre
O guarda-chuva
Contra o manda-chuva

Claro que não
É pra comparar
Mas o que lá
Querem começar
Cá está em
Baixo de forma
É a Tecnoforma

(refrão)

Hão de trazer
Grandes problemas
Esses esquemas
De “um país
E dois sistemas”

É Mary Poppins
E é Jacques Demy
É em Hong-Kong
Mas também será pra ti
Abre já o guarda-chuva
Contra o manda-chuva

(novo refrão:)
O essencial é o que sim se vê
Vais ver que vem aí o dia D
Democracia
Cá e na China



(dá para ouvir aqui)

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Faduncho para António Costa

Meu caro António Costa
Muitas felicitações
Nem sempre é fácil o óbvio
Ganhaste as pré-eleições

Agora ai não te iludas
Nem tudo é tão seguro
Para ganhar amanhã
Falta inventar um futuro

Sim, falar de crescimento
É bonito e necessário
Mas sem outro pensamento
É um bocado primário

(Como diz o Mautner,
Falta pôr poesia
Na democracia)

Gosto de ouvir o que dizes
Do tratado orçamental
Falta saber como fazes
Outra Europa em Portugal

É bom não perder o pé
Na fatal contab'lidade
Mas falta um ar que dê
Pra respirar de verdade

São abstratos os números
Cinzentos, sem coração
Falta a palavra concreta
Que projete uma visão

(Falta abrir caminho
Não terceira via
Pra nova utopia)

Contra a austeridade
Temos de semear ventos
Agora assim me despeço
C'os melhores cumprimentos 


(dá para ouvir aqui)

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Uma tragédia luso-americana

Em primeiro lugar, um nome, uma pessoa: Maria Fernandes.
Um nome, um lugar: Newark.

Mas depois também uma história que nos deve fazer pensar duas vezes quando subir de tom a conversa sobre o "estatismo", o "rigidismo", a "inflexibilidade" e a "viabilidade" do modelo social europeu.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Jornal Local: a idade

Na Rua do Poço dos Negros a jovem farmacêutica regressa de um intervalo para o cigarro. Jornal Local estava lá a ver, a registar, para lhe trazer, caro leitor, o que é daqui e de mais lado nenhum! Mesmo antes de entrar na farmácia, a mulher cumprimenta o sessentão que vem pelo passeio em sentido contrário. O homem para. A mulher já desapareceu e ele ali, especado, à espera de quê. Põe a mão nos olhos e esfrega a cara como que para limpar um pensamento, uma fantasia, que loucura. Suspira, e segue caminho.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Paz quente

(É a primeira das minhas Canções Crónicas na TSF.
Às 9.20h de sexta-feira, com repetição antes das 16h. E aos sábados, antes das 8.30h. Dá para ver e ouvir aqui
A letra desta semana é esta:)


Não é preciso ser assim um crânio
Pra perceber que aquilo na Ucrânia
Não é só uma guerra muita feia
Também é uma ferida europeia

A Europa tem de ser bem mais forte
Pra parar essa loucura de morte
Talvez fecharmos a torneira do gás
Para manter o continente em paz

(refrão:)
Não é ucraniana 
Tão-pouco russa
Esta guerra na Ucrânia 
É nossa
É também nossa

Os que enchem a boca de “realismo”
Fazem um mau serviço ao “liberalismo”
Churchill não é pra citar p'los salões
É pra seguir nestas ocasiões

Não é a terceira guerra mundial
Também não é só um conflito normal
Não digo entrar assim de peito feito
Mas a UE deve dar-se ao respeito

(refrão)

(O telefone do Kremlin
É o fetiche de Putin
Ao espelho a ameaçar
As tropas russas mandar 
Atacar, atacar, atacar)

Pôr Putin no sítio com um sorriso
Que um toque de ironia é bem preciso
Quebrar o gelo nunca fez nenhum mal
Viva o direito internacional


terça-feira, 23 de setembro de 2014

telex O Que Eu #2

Vou passar a ter um espaço de Canções Crónicas na TSF. A ideia é cantar ideias sobre a atualidade, musicar o mundo a quente. Na próxima sexta-feira, logo pela manhã (9.20h), passa a primeira. 
Entretanto, numa espécie de jingle desta coisa, atiro, por exemplo: 


O locutor a dizer golo
O coração até dá um estalo
Uma alegria sem fim

Avança a História mundial
E nós parados no Marquês de Pombal
Telefonia sem fios


Depois, em outubro, vamos fazer um filme em Arcos de Valdevez. Chama-se Triplo A. Uma aventura! A produção é da Take It Easy, que já produziu o Levantamento (http://oqueeugostodebombasdegasolina.blogspot.pt/2014/06/curta-metragem-da-curta-metragem.html). Ainda não posso explicar muito, que ainda não sei quase nada. Digamos que é um documentário misturado.


E meti-me numa alhada beckettiana ao aceitar dar uma conferência (pois…) sobre À espera de Godot. É dia 9 de dezembro, às 18.30h, na Casa Fernando Pessoa. Quem é que gosta de fantasmas?

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Coisa-pensamento




"É uma história um pouco confusa, porque é uma história de coisas e não de pensamentos" — avisa o Centauro em Medeia, de Pier Paolo Pasolini

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O sexo dos pronomes

Há qualquer coisa de tristemente burocrático nisto, sim. Tristemente pornográfico? Espreitar pronomes em namoros cronometrados de salão de hotel. 
Mas é engraçada a prova de que o uso excessivo do "eu" indica algum tipo de fraqueza, ou de menoridade em relação ao outro, alguma forma de submissão.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Canções crónicas

É oficial. Na nova grelha da TSF vou cantar crónicas. 
Um inédito por semana — a ver se atirar música contra o mundo ajuda a percebê-lo um nadinha melhor.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Razão

“Deves ter uma razão qualquer — disse o doutor — para proceder tão irracionalmente.”


(‘Agarra o Dia’, de Saul Bellow)

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Comparar

“That sudden and ill-timed love-affair may be compared to this: you take boys somewhere for a walk; the walk is jolly and interesting — and suddenly one of them gorges himself with oil paint.”


(do caderno de Tchékhov)

terça-feira, 2 de setembro de 2014

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

sábado, 2 de agosto de 2014

A arte da frase

“Estou para a metáfora de comida como a metáfora de comida está para os verbos intransitivos de bolachas.” — Buford, de Phineas e Ferb

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Corda de sisal

Há um oficial bem penteado num calhamaço russo que, quando recebe a ordem de transferência para a frente de batalha, responde qualquer coisa como: “Irei — se não para a posteridade, pelo menos para já!" Foi neste estado de espírito que, há uns dias, me arrastei até Ponte de Lima em busca de quinze metros de corda de sisal. Mal pisei o granítico chão da mais antiga vila de Portugal, parei. Sim, estanquei boquiaberto, não é assim a expressão? Tive de parar para, metaforicamente, esfregar os olhos. Um estranho espanto não me deixava prosseguir, mantinha-me ali preso dentro de que pergunta, suspenso de mim próprio: estava tudo tão diferente. 
Ponte de Lima nunca foi nenhuma Manhattan, não é propriamente famosa pelo seu bulício cosmopolita. Ainda assim, aquilo era demais. Não é que “a vila mais antiga do país” (como ensina a placa da autoestrada) parecesse velha, triste ou feia, mas estava paradíssima. Irreconhecível de tão quieta. Tão parada que quem ali chegava tinha também de parar e esfregar as metáforas em busca de explicação. 
Claro que o verão desacelera os lugares e as levas de turistas fotografando à toa pedregulhos milenares também. Tanta fotografia faz dos lugares cenários, torna a vida bidimensional. Isso é um fenómeno conhecido, estudado, científico. Mas ali era outra coisa, era demais. O sol limiano não apareceu agora e, pelo menos, desde os romanos, ou desde os gregos, ou muito antes, que há turistas por estas partes. Aquilo era diferente. O que acontecia ali era ao mesmo tempo mais simples e mais complicado, mais trágico e mais banal. O que acontecia ali era a falta de notícias. 
Lá fora, no mundo, um banco chamado Espírito Santo desmoronava-se, bombas caíam em Gaza, o presidente russo brincava às guerras mundiais, e ali, naquela concreta Ponte de Lima de julho, nada. Há pouco tempo — ontem — não havia vila mais velha ou mais nova totalmente imune às manchetes, ao ruído do tempo, à confusão mundana. Mesmo a desoras, com todas as bancas e tabernas fechadas, sempre havia um cartaz rasgado numa parede ou uma folha de jornal esvoaçando fellinianamente pelo claro-escuro da praça principal, sempre algum sinal de que o planeta é habitado, que o humano vive em glória, em tragédia, em busca de sentido. Hoje, ali, em pleno dia, não — nada. 
A crise dos jornais e do jornalismo também dá nisto. Terras sem manchetes; lugares limpinhos como cartões-postal ou selos comemorativos do mais tristonho silêncio imbecil. Claro que o online é o futuro, mas talvez os quiosques pudessem imprimir edições horárias mais baratas; e talvez não seja muito caro levantar alguns painéis eletrónicos nas fachadas, esplanadas, nos telhados, para que as manchetes voltem a atravessar as nossas cidades e vilas, novas ou antigas. Não sei. Talvez fazer jornais melhores? É que, das praças sem notícias aos corações sem consciência, é só um tirito. Na praça de São João lá encontrei quem me vendesse, a quilo, os tais quinze metros de corda de sisal. Mas de que é que podíamos falar, eu e o vendedor, durante os longos parêntesis do negócio, se não havia notícias que dessem data e hora àqueles pedregulhos imemoriais? 

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Devia estar nas regras

Quem sai de um clube escreve um texto a explicar as suas razões. Talvez isso não bastasse para acalmar a loucura das transferências, mas quem sabe a literatura sairia a ganhar. 

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Eu vou, e tu?

                                                    ©Bruno Simão

Libretto, de Jacinto Lucas Pires e Alma Palacios, estreia amanhã no Maria Matos. Em cena também nos dias 16 e 17. 

terça-feira, 8 de julho de 2014

Vingar o futebol-arte

O futebol-arte saiu deste mundial de maca, a chorar. Um grito desde a terceira vértebra lombar até ao mundo. Vai ser difícil vingá-lo. Só vejo um craque capaz de tamanho truque. Claro que, do lado do Brasil, é importante que Óscar acredite, que Hulk descartoonize, que Ramires ramirize e que Bernard jogue, mas para vingar essa dor do menino Neymar só mesmo o mestre Messi. Bem sei que é grande, histórica, louca, a rivalidade entre Brasil e Argentina, mas a arte atravessa tudo, não é assim? E, digam-me, caros leitores. Por uma vez não seria bonito ver a frase curta, a fina história, a piada sublime ser redimida pelo parágrafo infinito, o para-lá-de-romance, o monumento levantado em tempo real?

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Na Ferin, em inglês

Isto é, estarei amanhã pelas 18.30 na livraria Ferin a ler The True Actor — as aventuras de um tal Américo traduzidas para americano. 

terça-feira, 1 de julho de 2014

segunda-feira, 30 de junho de 2014

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Ler Luis Miguel Cintra

"Apesar de tudo já houve um tempo que vivi em que a face da Arte Portuguesa não era um Cacilheiro reciclado a boiar nas águas de Veneza."

"...Heiner Müller que nos viu e me beijou à russa com uma frase que nunca esquecerei: 'só os católicos entendem os comunistas'."

"...o Teatro é como estar vivo, não se faz sozinho, é nele e com ele que tenho usado a minha vida. E, quer se queira quer não, é como a Política devia ser, uma arte de estar com os outros."


(mais aqui)

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Pontapé de letra

Não, não é que esteja triste por não ter sido convocado. Quanto a isso, o que posso dizer é que o Jacinto irá continuar a trabalhar domingo a domingo, dando sempre o máximo, com o máximo de alegria. Mas, por favor, excelentíssimos pinguins da bola literária, o que é que vos passou pela cabeça? Coelho no escrete?! E Clarice é ala, não ponta-de-lança. Machado fica melhor a maestro, João Cabral tem de ser a escolha para a baliza, inteligência seguríssima. Na seleção dos EUA, Flannery não é central, é matadora! Etc, etc. Enfim... Tirando Shakespeare, que, claro, só pode ser o número 10, a jogar livre, o resto é tudo para repensar. 

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Outras palavras

"...Enquanto todos os outros modos de comunicação exprimem a realidade através dos 'símbolos', o cinema, por seu lado, exprime a realidade através da realidade." (Pier Paolo Pasolini)

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Jornal Local: futebol

No Largo Camões passam oito, nove, dez, onze?, jovens adultos com camisolas da seleção portuguesa. Jornal Local para, pasmado a olhar. Tão certinhos, vê-se logo que não são portugueses.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

telex O Que Eu

Dia 15 de julho, estreia no Maria Matos Libretto, uma peça minha e da Alma Palacios. É texto e dança e é completamente outra coisa.

Levantamento, o filme que fiz numa casa-em-progresso desenhada por Manuel Aires Mateus, foi escolhido para o Festival de Vila do Conde (5-13 de julho). É uma bela produção Take It Easy, com os grandes Paula Diogo e Tiago Rodrigues nos principais papéis.

O verdadeiro ator e outras coisas escritas estão na barraca (é assim que se diz?) da Cotovia na Feira do Livro. (The true actor aqui.)


terça-feira, 10 de junho de 2014

Democracia europeia contra Cameron

Sou tudo menos um apoiante de Juncker e digo: o problema chama-se Cameron, chama-se Merkel, chama-se diretório, e o Parlamento Europeu não pode ceder à chantagem antidemocrática dos governos.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Toda a diferença

A tática de Seguro na luta pela liderança do PS assemelha-se à daquelas equipas aflitas que defendem o zero com um autocarro. No máximo consegue um nulo, o mais triste dos resultados. Pois, nem vale muito a pena falar disso.
Sobre Costa, já escrevi isto e isto e isto. Não acredito em Sebastiões desnublados, mas sei que uma pessoa pode fazer toda a diferença. E, no entanto, hoje é preciso ainda mais. Uma nova voz para o país e uma nova visão para a Europa. De António Costa, espera-se que fale claro e para todos, que junte as esquerdas e todos os que sonham com uma mudança real. Uma palavra que inspire sem perder os pontos dos ii, uma esperança que tenha pés para andar. Vamos a isso?

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Primeiras leituras

É uma boa notícia o aparecimento do Observador. O nome, aliás, engana e ainda bem. Este novo jornal não se limita a "observar". Tem um ponto de vista claro — de direita — e não tem medo de dizer ao que vem. Bem pensado para a net, com uma ótima newsletter (escutando o mundo e outras vozes sem abdicar do seu ângulo próprio), com um desenho simples, sem demasiado ruído, e sabendo fazer perguntas importantes e difíceis. (Ainda não tropecei em nenhuma reportagem brilhante e a escolha das "primeiras páginas" tem sido, parece-me, algo desfocada, mas o jornal está a começar, é natural que falte afinar alguma coisa.)
O jornalismo de agora tem de afirmar uma diferença, uma outra visão do mundo. Não pode ser o mero repositório do que temos a todo tempo, em tempo real, na www.
De maneira que a minha pergunta é: quando é que começamos um jornal assim, do lado esquerdo dos dias? Podia chamar-se, por exemplo, Cantor. Porque um jornal não é só sobre o que se passou ontem, não é só para marcar a agenda de hoje, é também, sim, para cantar os amanhãs.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Mais

No Económico, Seixas da Costa diz que é o excesso de ambição que prejudica a Europa. Penso exatamente o contrário: o problema é o défice de ambição. A Europa só fará justiça a si própria se souber ser mais do que uma moeda e um mercado. Para isso, tem de ser mais democrática, mais política, mais solidária, mais cultural, mais próxima, mais. 

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Depois de um dia na loja do cidadão,

não há nada como um Stephen Malkmus & The Jicks.

Europa: mais política, mais democracia

O PPE de Juncker vacilou mas ganhou.
Más notícias para quem quer uma Europa mais solidária e mais democrática.
Por cá, o país parece trancado na confusão e no desespero. A coligação Passos/Portas perde, mas à esquerda está tudo por fazer.
Poderá o PS mudar de líder, discurso, visão? 
Ouvirá o BE este novo aviso do eleitorado?
Será o LIVRE capaz de se tornar no tal partido 'no meio da esquerda'?

quinta-feira, 22 de maio de 2014

O que o meu pai escrevia há dezasseis anos

"Um mercado único, coroado por uma moeda única, mas carente de suficiente 'união' ou solidariedade política, por um lado, e sem o respaldo jurídico e moral de uma sociedade civil europeia, por outro, constituiria um duplo risco. De facto, se é no plano político e institucional que se pode gerar o poder capaz de suprir as falhas do mercado, é no plano da 'sociedade civil' que se pode gerar a autoridade suposta pela ética de uma ordem liberal consensualizável. (...) Sem um maior sentimento comunitário, uma disposição cultural e moral partilhada, suficientes garantias de direitos iguais e a noção, ainda que só minimamente concretizada, da responsabilidade de um por todos e de todos por um, o mercado e a moeda seriam, ao mesmo tempo, demasiado abstractos, manipuláveis e alienatórios." (Amsterdão: do Mercado à Sociedade Europeia?, de Francisco Lucas Pires)

terça-feira, 20 de maio de 2014

Dia 25 de maio, voto Livre

Porque é o único partido de esquerda que, recusando sem meias palavras a austeridade e o tratado orçamental, quer ajudar a construir uma verdadeira democracia europeia — "por um governo da União numa democracia parlamentar europeia".

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Lágrimas de ferro

Angela Merkel a chorar na sala de crise do euro, com Obama de um lado e Sarkozy do outro. A chanceler de ferro com água nos olhos a dizer, “Não é justo.” E depois a lembrar aos presidentes dos EUA e da França que a “culpa” da constituição alemã é, em grande parte, dos aliados. 
No Financial Times, Peter Spiegel dá-nos a ver o subtexto da política da União Europeia sob a forma de melodrama familiar. São revelações surpreendentes, e um texto muito bem sacado (ainda vou na parte 1), mas o que se conta não é nada bom de ver.
Porque vem confirmar que esta Europa da austeridade, das troikas e do “conto moral” que põe as “formigas” do centro europeu contra as “cigarras” da periferia não é movida por qualquer visão de futuro, é apenas uma reação de fraqueza e pânico. Uma insegurança de ferro que tem por base o velho complexo de culpa germânico.
Muito boa gente ainda não percebeu, mas neste momento a luta é entre o sonho europeu e o trauma alemão.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Atingir o mundo

“A verdadeira tragédia de todo o poeta talvez consista em só atingir o mundo metaforicamente.” (Pier Paolo Pasolini)

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Dia do trabalhador

“Meu forte não é a humildade em viver. Mas ao escrever sou fatalmente humilde. Embora com limites. Pois do dia em que eu perder dentro de mim a minha própria importância — tudo estará perdido.” (Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, de Clarice Lispector)

quarta-feira, 30 de abril de 2014

O futebol-sim em Turim

Agora que o tiki-taka está em crise, talvez o Benfica pudesse começar a inventar uma coisa nova, não? Amanhã, em Turim? Um novo futebol-arte, feito sem patrões nem estrelas? 

segunda-feira, 28 de abril de 2014

A primeira vez que vi o nome Vasco Graça Moura

A primeira vez que vi o nome Vasco Graça Moura foi na lombada de um pequeno livro castanho na estante dos meus pais. O título, “50 Poemas de Gottfried Benn”, não me dizia nada, mas o livro era bom ao toque, e intrigavam-me os fiapos de papel que saíam pela parte de cima como ideias despenteadas. Não sei que idade teria ao certo. Era da idade em que achamos que os poemas têm de ser coisas bonitas, e aqueles textos negros, ou castanhos?, nem bem felizes nem exatamente tristes, foram um choque. De vez em quando, lá ia eu folhear aquelas palavras, “um ninho de ratinhos”, “esquartejado”, “revista americana”, “destruições”, “peça de carne”, “tiara e púrpura”, como que em busca de confirmação. Como se, apenas passados alguns dias, ficasse na dúvida se de facto lera tais palavras ou apenas as imaginara. Palavras desconcertantes, das que não esperamos encontrar nos livros. Estranhei também perceber que o nome na lombada era o do tradutor. Não pensei isso assim por extenso na altura, mas acho que foi aí que comecei a dar a importância devida a essa figura que muda as coisas de uma língua para outra, mudando-as nesse processo. Para que as coisas continuem a ser de verdade. Porque as coisas são as mesmas e outras numa língua e noutra. Desde então, cruzei-me com muitos outros textos escritos e traduzidos por Vasco Graça Moura, e esse choque inicial nunca desapareceu. Um choque em forma de estranheza, em forma de espanto, em forma de quê. Claro, acontece-me estar em desacordo com ele com muita frequência. E também isso tenho de admirar. Neste tempo de indiferença e ruído, alguém que sabe que escrever não é compor frases bonitas mas pensar, e que um escritor não é um ser longínquo no palácio imaginário do seu génio mas um cidadão no mundo, é um exemplo, tem de ser um exemplo para todos nós.

Não estou mas estou mas estou mas estou

aí.

Rotunda

“Torna-te livre”, diz o cartaz na rotunda. Política? Não, é só a publicidade de uma companhia de televisão por cabo. 

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Libretto

Libretto, de Alma Palacios e Jacinto Lucas Pires, estreará em julho no Maria Matos. Os ensaios já começaram n'O Espaço do Tempo. Exclamação! É bom tentar o novo em Montemor-o-Novo.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Reportagem 11



“O velho ditado de que a verdade é mais estranha que a ficção pode ser traduzido de forma mais adequada dizendo que a ficção não deve ser tão estranha como a verdade.” (G. K. Chesterton)

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Uma voz

pode fazer a diferença. Não é preciso inventar, não é preciso explicar, basta escutar e traduzir.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Vamo comer comida?

E este achado do João Pacheco? Tem docs ao lanche, fotografias de salpicões e que tais, e bonitos conceitos como "fressura de borrego".

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Interpretação, hoje às 21.30h, no Grande Auditório da Culturgest

Estamos na TSF.
No Jornal i.
E no Público — uma correção: o "relatório Estrela" é que nos copiou, por assim dizer...
No Público o título do espetáculo é "Interpretações" e, no Diário de Notícias, é "Tradução"... Volta, Joaquim, estás perdoado!

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Amanhã


Joaquim é intérprete nas instituições europeias. Sentado atrás de um vidro, traduz os discursos dos outros. Um dia comete um erro — um errozinho, um pequeno falhanço, coisa mínima — que se transforma num gigantesco malentendido. O quê, a crise da União Europeia é culpa dele, afinal? Será possível? Como é que é, de repente a crise de identidade que o nosso Joaquim atravessa é a crise da Europa? 
Um monólogo com oitenta e tal pessoas em palco, teatro da palavra cheio das melhores estatísticas, uma tragédia que é também uma comédia (nunca dá para explicar a coisa toda, assim a seco, nestes textos de apresentação). Eu-tu-ele, Eu-ro-pa.

terça-feira, 1 de abril de 2014

sexta-feira, 28 de março de 2014

Instituto Português do Mar e da Atmosfera

E depois, entre os barcos, há aquilo. Aquela grande coisa branca chamada Noruega. Como que pousada sobre a superfície escura da água, aquela coisa apenas branca transportando o título INSTITUTO PORTUGUÊS DO MAR E DA ATMOSFERA. Carregando a carga magnífica desse título com a maior das calmas. Uma coisa branca e verídica no rio Tejo. Um branco que não é o das lágrimas salgadas de Pessoa, nem o da cal dos silêncios de Sophia, um branco de gelo mesmo. Na ponta da cidade, um icebergue, e nós continuamos a tocar violino. 

quarta-feira, 26 de março de 2014

Postal de subir a rua

Sobre os lacrimejantes, nem vale a pena falar. Sobre os cerebrais, sim. São uma fraude. 

Chamam-lhes abstratos mas isso oh é dar mau nome ao abstrato. 

Abstratos somos nós que sabemos que não há nada mais exato direto real do que, de repente, um — por exemplo, gesto — na vida.

Ontem, ao subir a Rua do Alecrim, vi um S junto às palmeiras. Um S maiúsculo e mesmo grande, vermelho, pop, prestes a entrar em movimento. Esqueçam os vossos adjetivos e toda a vossa meta-esperteza de bolso. Arte poética é subir a rua, senhores.

Não, nós não estamos entre esses e aqueles. Estamos à frente. Se, por acaso, uma coisa dessas desses daquelas daqueles nos cai nas mãos o que não podemos deixar de sentir é um atraso no nosso regresso ao futuro, um atraso que é demais, que não se aguenta, que é tão triste.

Isto está um pântano. Vamos fazer um rio que lave esta merda toda. Um arranha-céus profundíssimo, um foguetão com os pés nos chão. Vamos fazer outra palavra, um movimento, recomeçar o Novo. Isto está irrespirável, chato, mole. Sejamos duros e de alegria.

Que se foda a felicidade das revistas de fim de semana. Queremos é mudar o mundo, torná-lo sim para sempre.

Inteligentes que não se mexem só artistam para a conta bancária. 

Ocupemos a praça pública com o escândalo da beleza, o escândalo que é ter os olhos abertos. Temos medo e não, porque trazemos perguntas antimorte, piadas parvas, uma falta de noção musicalmente indestrutível em relação a tudo o que de verdade não interessa a ponta dum corno.

No sol e na noite somos feitos de teatro, coisa mais verdadeira.

Como o S de sim se põe em movimento — palmeiras, automóveis, pop expressionista abstrato no concreto do Alecrim sob uma tira de sol de março, fins de — também nós.

E quando tivermos de fazer uma pausa, façamo-la sem itálicos.

Pausa.

Sim, claro, tu és dos nossos. 



terça-feira, 25 de março de 2014

Jornal Local: gémeos

No passeio da Avenida 24 de Julho, dois sessentões magros, grisalhos, carecas, de óculos e barba, gémeos. De calças beges, iguais, e casacos idênticos, tipo montanhismo-moderno. Jornal Local testemunha: foi só isto. Quando dobram a esquina, desaparecem.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Jornal Local: homem novo, homem velho

Um homem de cabelo claro, caracóis, roupa modesta, no Largo Camões. Um velho aparece por trás e prende-lhe o cachaço com uma mão. O tipo mais novo diz alguma coisa que não se ouve, com uma expressão que se vê logo ser de ironia. Espreita pelo canto do olho tentando perceber quem o prende. O velho aguenta-o preso ali, em público, durante uns três segundos eternos. (Jornal Local estava lá a cronometrar.) Depois larga-o como se não fosse nada, diz alguma palavra de circunstância. Em resposta, o tipo mais novo levanta o folheto que tinha na mão e bate com ele na testa do velho. O velho sorri mas não se vira. A amizade é uma coisa mesmo bonita.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Contagem decrescente para dia 4 de abril

Interpretação
de Jacinto Lucas Pires para Tiago Rodrigues
Um espetáculo do Mundo Perfeito
     EPA/LUSA – Christophe Karaba (pormenor)


Texto Jacinto Lucas Pires Encenação e interpretação Tiago Rodrigues 
Grupo coral Coro Sinfónico da Escola Superior de Música de Lisboa 
Desenho de luzes Thomas Walgrave Apoio coreográfico Mafalda Deville 
Cenário, adereços e figurinos Magda Bizarro e Tiago Rodrigues 
Direção de produção e fotografia de cena Magda Bizarro 
Assistência de produção Rita Mendes Produção Mundo Perfeito 
Coprodução Culturgest


Alegria Estatística

Em 2009 41,8%
da população da União Europeia vivia num apartamento
34,4% numa habitação unifamiliar
e 23% vírgula nada
numa casa geminada

Casas geminadas é mais Países Baixos, Reino Unido e Irlanda
Apartamentos é mais na Letónia, na Estónia e em Espanha

Mais de um quarto do povo europeu
vive sob um empréstimo ou uma hipoteca
não tem nada a ver mas Portugal é dos últimos
no ranking do uso da bicicleta

Falando de coisas sérias
o salário mínimo na Europa
varia entre 123
e 1758 euros brutos por mês

No PIB per capita a Alemanha está aí
uns 22 pontos acima da chamada euromédia
Mas em 2010 a menor taxa de suicídios
foi registada na Grécia

Num ano inteiro, neste nosso país
houve 0.8 espetadores
de espetáculos ao vivo por habitante
não é assim muito brilhante

Mas o que importa não é a quantidade
é a possibilidade e investimento nos amanhãs
e, a propósito, importámos
56.234 coxas de rãs

Letra de Jacinto Lucas Pires para o Hino da Alegria
(também Hino da União Europeia) de Beethoven


Playwright and novelist Jacinto Lucas Pires and theatre maker Tiago Rodrigues have both presented their work at Culturgest (where they actually met). Now, Jacinto writes for Tiago to direct and perform, sharing the stage with a symphonic choir. Interpretação is a light tragedy about an interpreter who makes a translation mistake at the European Parliament and throws the EU in a political crisis as well as himself in a quest for identity.  
© 2014 Culturgest

SEX 4, SÁB 5 DE ABRIL
Grande Auditório
21h30 · Duração: 1h00
15€ · Até aos 30 anos: 5€
M12

Informações e reservas
21 790 51 55

quarta-feira, 19 de março de 2014

Mais europeias

Embora antitroika como Pacheco Pereira e federalista como Paulo Rangel, acho que aqui nenhum dos dois tem razão. Mas é deste tipo de discussões que precisamos no debate das europeias.
Os sinais são quase todos de sentido de contrário, bem sei. Da composição das listas à falta de discurso europeu dos partidos, das escolhas da comunicação social aos folhetins do "consenso", tudo concorre para que estas sejam "só mais umas" eleições. Cada um preocupado apenas com o seu quintal eleitoral, falando da Europa como se fosse uma coisa lá fora, que outros devessem tratar por nós, discursando para sondagens, não para pessoas.
Ainda estaremos a tempo de mudar isto? Se não podemos deter um comboio em movimento, pelo menos podíamos levá-lo a passear pelo campo das ideias, não?