quarta-feira, 28 de março de 2012

Jornal Local: três mulheres

Uma mulher caída no passeio da Rua do Ouro. Pele clara, óculos escuros, o cabelo como que entornado na calçada. À volta dela, um grupo de pessoas tentando ajudar; de telemóvel na mão, um homem diz que vai ligar para o 112. Furando o sol de março, que silêncio de repente.
E, ao virar da esquina, na Rua da Vitória, uma rapariga sentada nas escadas da capela, de olhos baixos e auscultadores nos ouvidos. Nem de propósito, Jornal Local regressava da leitura de O Livro das Igrejas Abandonadas, de Tonino Guerra — pensamento interrompido pelo gesto da rapariga, que levanta os olhos, espantada.
Em frente a ela, como que em adoração, numa lentidão de fundo, doloroso amor, uma velha de gabardine benze-se. Um, dois, três. A rapariga da música na cabeça aguenta o olhar da velha durante um bom segundo, depois vira a cara. Sorri?

terça-feira, 27 de março de 2012

O dia da morte do teatro português

Richard Eyre tenta explicar aqui porque é que os melhores atores são ingleses. A conversa do “melhor” fica para outra altura, mas as razões que o encenador adianta são interessantes. A razão principal, diz ele, está no facto da Grã-Bretanha ser uma nação reprimida.
Portugal é reprimido de uma forma completamente diferente, mas talvez esteja também aí a explicação para haver por cá vários atores bons e alguns verdadeiramente grandes — apesar de, ao contrário do que Eyre diz sobre o seu país, não termos Shakespeare no ADN, nem um sistema forte e consistente de apoio público ao teatro, nem uma grande vocação ritualística. No máximo, teremos algum Gil Vicente no sangue. O cerimonial social parece resumido a uns passeios domingueiros, de bolsos vazios ou cheios de dívidas, pelos corredores brutalmente iluminados dos centros comerciais. E a visão do governo para a cultura é o que se sabe. Para pôr a coisa na linguagem em que a troika, o ministro das finanças e o primeiro-ministro pensam o mundo e a política: zero vírgula zero.
No New York Times, a acompanhar um artigo sobre a forma como a crise europeia está a levar a cortes nas artes, há uma fotografia de uma holandesa com um cartaz a dizer que investir na cultura é investir no futuro. Umas linhas abaixo o que se lê sobre Portugal é que, por aqui, foi abolido o ministério da cultura. É onde estamos, senhoras e senhores. Queremos ir, bem comportados e deprimidos, na cauda do comboio da austeridade, e de uma austeridade contraproducente ainda por cima — ou queremos o futuro?
Neste dia mundial, em vez de fazermos umas florzinhas para deixar na campa do teatro português, olhemos o problema de frente. Porque, sim, o cartaz holandês acerta no nó da questão. Em vez de abolir a cultura, devíamos tentar antes, como no poema de Sophia, abolir a morte. E, digam-me, como fazer isso sem literatura, música, cinema, dança, teatro?

segunda-feira, 26 de março de 2012

Antonio Tabucchi: dar a volta a este mundo

Escreveu sonhos de sonhos mas também das mais acordadas crónicas. Tinha ideias altas e pés no chão, uma voz e coragem. Era um escritor italiano, português, um europeu de corpo inteiro. Era não, é. Antonio Tabucchi não desapareceu, está só de viagem algures entre Lisboa e Roma, nesse avião que atravessa o tempo, à procura das palavras certas para dar a volta a este mundo.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Estou com a greve geral

Porque, contra esta triste Europa-excel, temos de reinventar uma Europa política, de ideias e futuro. Uma Europa que, para dentro, seja um corpo solidário e, para fora, uma voz clara e forte. 

Porque, para mudar este país de números e cortes e governantes-robôs que, perante todo o mal, só sabem repetir como o outro que daí lavam as mãos, temos de lutar.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Tonino Guerra

Ouço na rádio que Tonino Guerra morreu hoje, no dia da poesia, no dia das florestas. Há mil anos, quando havia um jornal chamado A Capital, escrevi isto sobre o mestre italiano: 

'...Ele é, para dizer a verdade, um caso à parte, mais um escritor de filmes do que propriamente um “argumentista”. Um poeta guardador de histórias que, quase por acaso, entrou no cinema e aí fez casa. Um fazedor de imagens de um tempo anterior ao da “era das imagens” que soube trazer silêncios e segredos para as narrativas do grande ecrã. E, nem é preciso dizê-lo, um importante autor por direito próprio.
O que não quer dizer que imponha a sua assinatura nos filmes em que colabora. Pelo contrário: se há algo que define a escrita para cinema de Tonino Guerra – ele que escreveu, sozinho ou em colaboração, obras-primas tão diferentes quanto “A Aventura” e “Blow Up” (de Antonioni) ou “Amarcord” (de Fellini) – é a enigmática transparência das suas construções e a forma generosa e sábia como ela se aproxima de universos tão distintos. A mestria de Tonino Guerra está aí e também naquilo que, na entrevista dada a Jorge Leitão Ramos para o Expresso, ele chama, modestamente (provocatoriamente?), “intervalos poéticos”.
A sua lição de “menos histórias prepotentes” deve ser escutada com toda a atenção, isto é, de olhos bem abertos. Como será possível, de novo, um cinema assim “moderno”, de espaços e entrelinhas e com o homem no centro?'

No dia da poesia

...estarei aqui a ler prosa. Misericórdia!


terça-feira, 20 de março de 2012

Jornal Local: o céu

Uma carrinha parada, com os quatro piscas, a bloquear o trânsito, na Rua da Silva. Dois polícias dobram a esquina em amena cavaqueira, despreocupados com questões terrenas dessas. Atrás da carrinha sem condutor, Jornal Local espera, abre a janela. O que é que se há de fazer? 
É tão estreita a Rua da Silva que os prédios de três, quatro andares, parecem subir até ao infinito. Um cheiro a salsa e escape; lençóis coloridos nas janelas como puros estandartes, emblemas de azul-atlântico, rosa-flor, amarelo-sol. Nesta viela-catedral, tudo nos atira para cima, até ao céu.
E, no final, mesmo antes do condutor regressar à carrinha abandonada em plena via pública, o céu responde. No ombro de um dos polícias, plim, o dejeto esbranquiçado, líquido, de uma pomba.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Um poema de Wang Wei

Para Wei Mu


Despreocupados, passeando pelas montanhas do Leste,
vemos crescer, entre nós, a erva da Primavera.
Em comum, homens com o azul nos olhos,
temos, no coração, uma nuvem branca.




(do livro "Poemas de Wang Wei", tradução de António Graça de Abreu, ed. Instituto Cultural de Macau)

sexta-feira, 16 de março de 2012

Queres Ser Hamlet

Parece que o governo aconselha os cidadãos a procurar futuros fora do país... E se fizéssemos uma visita de estudo a Yale ?

quinta-feira, 15 de março de 2012

Sublinhado Bloom

"A Tempestade deixa-nos limpos de imagens."


(Shakespeare: The Invention of the Human, de Harold Bloom)

terça-feira, 13 de março de 2012

O nosso Adalberto na televisão!

Depois do blá-blá-blá do autor, há um belo tchanã do ator.


Aqui ficam os nossos agradecimentos à ESECTV, com uma correção: Adalberto Silva Silva é uma criação de Jacinto Lucas Pires e Ivo Alexandre.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Esperança, esquerda, Europa

Comecei a ouvir o novo disco de Bruce Springsteen. Parece uma coisa à antiga, e isso é bom, com uns toques de agora, e isso não é mau. Mas, da música do autor de Glory Days, já quase gosto antes de ouvir. Há ali uma forma especial, maravilhosamente americana, de não precisar de sair de casa para ser aberto ao futuro. Um "bom coração duro" que é rock até na falta de pudor em dizer, com todas as letras, o que é certo e o que é errado, o que dói e o que anima e salva. Talvez o Barack Obama do segundo mandato tenha algo a aprender com este Wrecking Ball: a parte da dureza, do aqui-vai-disto, o lado "ação" sem o qual a "esperança" se torna retórica. E a nossa esquerda então...
Não há por aí uma voz que, resgatando o europeísmo no "dia d" da globalização, saiba afirmar uma Europa maior que esta tristeza de números, números, números? 

sexta-feira, 9 de março de 2012

Jornal Local: mudança

Na Calçada do Combro, a manhã sobe lenta. Gorros e manga curta, diferentes estações do ano, três ou quatro fusos horários passando à frente deste Jornal Local que daqui vos fala. O inverno leva um cão pela trela, a primavera empurra um carrinho de bebé desocupado. Pela velha Calçada, sol e o sentimento íngreme de março às nove da matina. Um miúdo negro desenrolando-se de um cordel que um miúdo branco segura na ponta; um homem de cócoras pintando a porta azul da pastelaria As Zebras do Combro. E, sobre isto tudo, a voz de borracha, de metal, de susto, de David Bowie: "Ch-ch-ch-changes!"

quarta-feira, 7 de março de 2012

O craque desconcertante


Na bancada do castigo Pablo Aimar não pôde, claro, liderar coisa nenhuma. E que falta fez ontem, quando era preciso inteligência e não nervoseira, alma em vez de ai-jesus, rasgo no lugar do cagaço. Seja como for, ganhámos, passámos. E agora, com o nosso maestro a comandar e com o hino das papoilas saltitantes bem afinadinho, podemos bater qualquer equipa do mundo. Não exagero: mesmo com problemas, mesmo com toda a crise, o Benfica é o Glorioso. E bota maiúscula nisso, não é, caro Bruno? A César o que é de César! Sim, sejamos justos com o nosso craque desconcertante. Foi bem esperto, e de uma esperteza macia, aquele chuto de Nélson Oliveira por entre as pernas russas para o segundo golo, e foi uma obra-prima de tropicaleuropeísmo o toque de calcanhar de Axel Witsel que assiste o primeiro 1-0 — mas, não há como fugir, o herói desta terça-feira de Luz chama-se Bruno César. Ele é careca, quase gordo, tem uma expressão carregada, um rosto a traço grosso que não parece desenhado para sorrir, e não joga à brasileira. E isso o que importa? Quando abre o livro, o homem faz história. Não viram ontem? Não, temos de olhar para lá do cromo. A verdade é que Portugal tem muito a aprender com o nosso Chuta-chuta. Se estamos em desvantagem, não é nem com lamentos nem com florinhas que vamos lá. Temos de querer com todo o querer, coração e cabeça, corpo inteiro, e no momento exato passar a bola a quem precisa.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Glorioso: não existem sinónimos

Depois do desconchavado apagão de sábado, a única saída para o Benfica é eliminar o Zenit sem espinhas e atirar-se à vitória na Liga dos Campeões. O Glorioso só pode ser o que é. Já lá diz o grande Rubem Fonseca (obrigado, Tomás), "Não existem sinónimos!" A glória é a glória é a glória. Ofereçam a braçadeira a Pablo Aimar e ponham-no a liderar a coisa a ver se não conseguimos todos os impossíveis e mais algum.

 

sábado, 3 de março de 2012

Adalberto Silva Silva está na estrada



Os interessados em receber este "espetáculo de realidade" devem escrever, por favor, para: jacintolucaspires@gmail.com. Muito obrigado!

quinta-feira, 1 de março de 2012

Zona de conforto

...E obrigado, claro, ao Pedro Adão e Silva. Foi uma honra inaugurar a cantoria neste novo lugar sem fios. É muito bom haver espaços assim para a música que não cabe propriamente no "bloco central"... Boa sorte!