quarta-feira, 23 de maio de 2012

Sobre uma fotografia de Kosuke Okahara

Entre a terra e o céu, no mar de repente parado, o caráter japonês. É uma lição. Ensina-nos o que sempre soubemos mas sempre esquecemos: as palavras são coisas, são coisas as palavras.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Cidade Domingo

Estreia hoje a peça que escrevi para o Teatro Oficina. Sete mil e tal palavras em forma de cidade. Muita merda!

quarta-feira, 16 de maio de 2012

A ideia de uma bala em câmara lenta


Sou um otimista, pois, mas ele há dias em que as reuniões de "alto nível" na União Europeia só me lembram esta cena que Godard nunca chegou a filmar: "the routine of a troupe of clowns to illustrate the idea of a bullet flying in slow motion" (Richard Brody, na New Yorker).

terça-feira, 15 de maio de 2012

No meio da tempestade, de tichârte

Aprendi numa tichârte da Cotovia esta joia de Antonio Machado: "porque em amor/ loucura é o sensato". É talvez um bom conselho para a Europa, que, entre a atitude de "marido enganado" do centro rico e as desculpas de "infidelidade" das periferias pobres, parece presa num gigantesco mal de amor. É verdade que, na Grécia, Tsipras, o líder da coligação Syriza, joga um jogo perigoso no imediato, quando há apocalipses económicos anunciados todos os dias e os corretores de Londres já começaram a pôr o dracma nos ecrãs. Mas ainda é mais verdade que, nesta Europa de austeridade, tecnocracia e nevoeiro, a "loucura" do novo líder grego aparece como "sensatez". Alguém que, no coração da tempestade, tem a coragem de dizer o óbvio: nós somos europeus, não podemos nem queremos ser outra coisa, só que isto não é um caminho. Estamos todos no mesmo barco, e este é o momento em que a Europa se deve redefinir como espaço de solidariedade e democracia — para se tornar uma verdadeira união.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Sou o gato que Alice

Sou o gato que Alice tem em casa, num cesto de maçãs sem maçãs. Um gato falso, pois, mas respiro de verdade. E o que aqui venho dizer, caros ouvintes, é que, miau, a minha dona já viu mais que vocês todos. Uma vida tão viajada que até me confundo a contar. Vacas preguiçosas no Círculo Polar Ártico, a hora de ponta na selva de Moçambique, civilizações antiquíssimas nuns metros quadrados em Alverca. A minha dona é viajada, sim, mas também é mulher. E como ela própria diz, “Deus fez o homem e descansou, fez a mulher e nunca mais descansou”. Ainda agora eu queria dormir e ela liga a televisão, de modos que se vos atiro estas palavras, caros ouvintes, é também a ver se consigo furar tanto anúncio, tanto ruído, tanta, perdoem-me, caca. Sim, caca. Respiro a sério e também produzo um ressonar de qualidade, mas não faço caca. Enfim. Além de dormir, gosto de sair por este Recolhimento de São Cristóvão, que é um lugar antigo por fora e muitissimamente novo por dentro. Um condomínio aberto, uma casa de casas, um labirinto até ao azul. Quando todas as mulheres dormem, brinco por aí como brinquedo que sou. (Digo “mulheres” mas sem mal. É como ensina Maria Aldina, “Ai não me tratem por ‘Dona’ nem ‘Senhora’. ‘Senhora’ é a que está no céu!”) No armário a que as pessoas daqui chamam “a capela”, finjo que sou um pássaro no Marvão de Maria José planando sobre alturas e funduras, toda aquela saudade de pedra. Finjo que sou um leão moçambicano escalando as pirâmides maias que Alice fotografou com os olhos. Finjo que sou um humano a atravessar as índias da memória de Cecília e, num instante, como quem muda de fuso horário, passo do português de Goa ao inglês do resto do mundo, “gerundiamently”, “etcétera e what”. Outras vezes ponho-me na marquesa da enfermaria, de patas para o ar, a brincar à doença dos nomes. Lourdes tem muito orgulho em ser Lourdes com “o-u”, Delfina foi sempre Delfina porque não há diminutivo para um nome assim, e Francisca não gostava nada quando, em miúda, lhe chamavam Chica, mas eu, miau, nem nome tenho, não tenho um nome, e gostava tanto. Que nome me dariam, queridos ouvintes, excelentes pessoas? Talvez pudesse ser Fellini, o que é que acham? É que às vezes, à noite, na varanda sobre Lisboa, entre as estrelas e os planetas mas um bocado ainda maior, vejo um piano fechado. Será grave? Maria do Carmo explica que está muito surda e que, um dia destes, põe mas é um aparelho nos ouvidos. Maria Aldina diz que, desde que lhe tiraram as cataratas, vê muito colorido mas também muita ruga. Eu vejo um piano sem cauda, moreno e manchado. Juro, é verdade. Sou um gato falso mas não minto. Um piano fechado no céu aberto a tocar canções iguais a mim. 


Jacinto Lucas Pires — com Alice Silva Gaveta, Cecília de Sousa, Maria José Carrilho, Francisca Pinheiro, Delfina Gonçalves Branco, Maria Aldina de Sousa, Lourdes Victorino e Maria do Carmo Santos (da Leitura Furiosa destes últimos dias)

sexta-feira, 11 de maio de 2012

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Jornal Local: o amor

Na saída da estação de metro da Baixa-Chiado, à boca de cena, o homem com a mão estendida, calado, a pedir dinheiro. Na sombra, de óculos escuros. A mulher avança com a vareta a bater no chão. Vem lá de baixo, lá do fundo, na direção dele. Meu Deus, vão chocar. Como aquele tímido antes de atender o telefone numa canção de Chico Buarque, o homem vira a cara, penteia-se. E não chocam, ou sim, chocam num beijo. Bom dia.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Sublinhado Europa

No dia da Europa talvez o melhor seja ouvir um americano. Diz Adam Gopnik, na New Yorker de 7 de maio: "In thinking about Europe and its union, the number that one needs to keep in mind is not the rate of the euro exchange or the measure of the Greek deficit but a simpler one, of sixty million. That is the approximate (and probably understated) number of Europeans killed in the thirty years between 1914 and 1945, victims of wars of competing nationalisms on a tragically divided continent. The truth needs re-stating: social democracy in Europe, embodied by its union, has been one of the greatest successes in history. Like all successes, it can seem exasperatingly commonplace. There is something uninspiring about the compromises and the dailiness of a happy marriage, and something compelling about one that is coming apart: it looks more like the due fate of all things. Yet the truth ought to remain central."