quinta-feira, 26 de abril de 2012

Soprar as velas do 25 de Abril

A revolução é voltarmos às praças, reinventarmos o espírito de cidade, retomarmos a conversa em nome do "todo", e de novo sem medo da palavra "amanhã". Mas fazer isso hoje. Mas fazer isso aqui, sem demora, que o tempo está cinzento, pesado.

O que nos deixa em casa, com a alma de pantufas, a ver dvd's em vez de ir ao teatro ou ao cinema é o mesmo pé-atrás que nos faz olhar para a política como o lugar "deles". Não pode ser, a política é o nosso lugar, o lugar do "nós". Para conjugar que desígnio, que país?

Esta versão de "democracia-wireless", composta por "cidadãos-ipod" cada um no seu cantinho, é a de uma democracia partida, sem futuro. A política é o lugar do "todo", e o "todo", como todos sabem — exceto talvez os governantes-contabilistas no poder aqui e na Alemanha —, é maior que a soma das partes. Temos de voltar às praças carregando ideias e esperança. Regressar ao futuro?

Bela lembrança, a da Tocha e do Júlio Oliveira, presidente da Junta de Freguesia, de celebrar o aniversário do 25 de Abril com uma conversa pública, seguida de festa. Muito obrigado pelo convite. Foi uma honra soprar as velas da revolução. ("Soprar as velas" tem mais que um sentido, e a minha ideia não era apagar o fogo mas ajudar modestamente esta nossa caravela a avançar para outros céus mais abertos.)

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Metáfora 2

Debruçada sobre o muro do cemitério, distraída e prática, a mulher de faces rosadas deita as flores ao lixo.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Devia ser este o novo treinador do Benfica

Só um louco assim sábio para pôr em movimento as toneladas de mística do Glorioso: o Benfica de novo ao ataque. (Com o Rui Costa a presidente?)

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Daqui faz-se um espetáculo de marionetas sem marionetas, só com mãos, na rua, em francês talvez,

ou um filme com o Al Pacino. Ou uma stand-up opera? Ou uma longa anedota lírica, um poema mortal e anti-musical? 



Ou nada, que isto basta. 


terça-feira, 17 de abril de 2012

Um poema de Alexandre O'Neill

O GORDO

É preciso o gordo
sua desopilação
seus refegos
sua nuca

O gordo e seu estorvo
seu pisar manso
seu hílare resfôlego
sua risadinha pregueada
sua pantufa cacilheira

É preciso
rotundamente
o gordo

Queremos ser
absolutamente
atravancados
pelo
gordo



(do livro "Dezanove Poemas", na coletânea "Poesias Completas", de Alexandre O'Neill, ed. Assírio & Alvim)

segunda-feira, 16 de abril de 2012

A solução para a crise europeia

Não haverá por Bruxelas nenhum Sir Humphrey em "open mode" capaz de pôr o Conselho Europeu, a Comissão Europeia, o Parlamento Europeu, os Cidadãos da Europa, a ouvir esta lição de John Cleese? Larguemos a solenidade das coisinhas e comecemos sem medo a construir um tempo de ideias novas. John Cleese para Presidente da União, já!



(tirado daqui)

sexta-feira, 13 de abril de 2012

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O teatro ou a vida

Na sala de ensaios, em Covas, pergunto ao teatro: aqueles momentos em que só sabemos repetir "isto não está a acontecer"?

Passadas umas horas, na estação de serviço de Pombal, a vida responde-me com um ponto de interrogação: isto, por exemplo?

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Um batalhão de helicópteros transportando, virado para baixo, o maior espelho do mundo

Inspirados na ideia que, há uns tempos, Manuel João Vieira propôs para o amor-próprio de Lisboa, devíamos colocar um espelho gigante no Atlântico, no Mediterrâneo, na Rússia, no Céu, para que a Europa, caramba, se enxergasse.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Sobre uma fotografia de Joel Sternfeld

A morte é uma cadeira livre, mas o homem faz de conta que não percebe. Finge com um estilo do caneco. Quando era novo, sabia o truque contra toda a dor, todo o erro, todo o mal. Fechar os olhos, abrir as narinas - e ver mulheres nuas. Corpos macios e elétricos como a voz de um blues. Quando era novo, via. Agora o máximo que consegue é pensar nelas. Os olhos nublados, mesmo que não os abra. Quer dormir mais um bocado, só mais um minuto. É ele o homem. O velho homem. Chegou ali, tem cem anos. Corpos macios e elétricos como pensamentos mortais. Passou tão rápido, meu Deus.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

A secreta vida das plantas dos pés

A minha ideia de praia é uma esplanada ao pé do mar. É bom de vez em quando ir dar um mergulho, jogar um futebol, comer uma bola de berlim, mas ficar na areia, no tédio, ao sol, sem fazer nada, não, por favor. Ler também é uma boa safa, claro. Afinal de contas, ler é “fazer” uma coisa, é um movimento por dentro. Com um texto nas mãos, a areia já não é tédio, nem o sol é o pleonasmo chato de uma lâmpada acesa em pleno dia. Quem sabe, talvez tenha sido isso, não ter nem um livro para abrir, que me pôs a correr na praia nesse primeiro dia de férias.
    No começo da corrida tudo é novidade feliz. Até as pedras, pedrinhas, conchas e conchinhas de que temos de nos desviar ou aprender a pisar com a mistura certa de decisão e ternura. No começo, sabe muito bem o ar, o vento, a maresia. Não vou escrever nenhum poema sobre as maravilhas da nossa costa, estejam descansados, mas o facto é que uma pessoa se sente bem, livre e saudável. Por um momento, podemos apreciar o regular funcionamento das instituições do nosso corpo contente, pele, pulmões, coração... alma? Não sei, é como se corrêssemos dentro de uma embalagem de rhinomer. No bom sentido: cheios de água do mar isotónica no cérebro. Deve ser mais ou menos isso que os surfistas sentem, aquilo sobre o que cantam os Los Hermanos.
    Só que, algures entre o vigésimo oitavo e o vigésimo nono minutos, rompe-se uma corda de ar no cérebro e tudo muda. De um momento para o outro, é como se fôssemos expelidos, perdoem-me o verbo, da embalagem de rhinomer, para descobrir que a água do mar não é afinal isotónica mas 100% estéril. Estéril?! E aí o postal oh tão bonito começa a abrir rachas. Perguntas atrevem-se a espreitar-nos da espuma, do céu, das casinhas perdidas na falésia; perguntas fixando-nos, maliciosas, de todos os pontos da paisagem que ainda há pouco nos parecera tão bela e inocente. Perguntas como: para que fazes isto? Não seria melhor estar sentadinho com um livro à frente a beber grappa? O quê, porque faz bem, porque te faz sentir bem? Porque assim terás mais dias para poder estar sentadinho com um livro à frente a beber grappa? Mas isso está provado cientificamente? Já viste os dados, os números, os gráficos, as percentagens? Não seria melhor estudar bem essas provas antes deste esforço danado? Não seria melhor arranjar um lugar para ficar a estudar essas provas médicas bem sentadinho e com uma grappa storica ao lado?
    Triste não é ficar parado a correr contra o vento quando se dá meia volta para regressar, triste não é desistir a meio do percurso de regresso enquanto o nosso parceiro de corrida continua cheio de força até ao fim, triste não é o vento que como que nos embrulha os ossos de frio e nos desregula de ridículo as instituições internas, cabeça, coração e alma, quando voltamos a coxear. Triste é a nódoa negra na planta do pé. Culpa de uma dessas amorosas pedrinhas ou conchinhas, humilhante desculpa para os dias seguintes. “Queres vir correr?” “Ah, não posso. Pisei uma conchinha e fiquei com uma nódoa negra...”

terça-feira, 3 de abril de 2012

O estilista prático

Bruno César foi o herói do jogo com o Braga, claro. Mas Axel Witsel chutou aquele penálti para golo quando o mundo pesava todo sobre a bola.
O belga já tem um caráter inconfundível. Não há ninguém parecido com ele no futebol mundial. E não me refiro à cabeleira afro nem ao terço tatuado. Falo de futebol: o nosso europeu mulato é um bailarino tático, um tropicalista do ártico, um estilista prático. Com a bola no pé, o miúdo desenha parágrafos à Flaubert, mas, se é preciso, também é homem para arregaçar as meias e atirar-se hemingwaymente ao assunto, palavras simples, frases fortes.
É preciso resolver a grande penalidade? Witsel avança para o esférico como quem reza, e no instante seguinte a coisa está feita; o mundo leve rodando, preguiçando, nas redes.
Tenho um pressentimento que, em Londres, este nosso Peter Pan vai descoser-se da sombra e inventar outra história feliz para o Glorioso. Quem vota Witsel?