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quinta-feira, 26 de maio de 2022

sexta-feira, 2 de março de 2018

Agora

Estreia hoje, em Arcos de Valdevez. Na Casa das Artes, às 22h. 

Agora: uma comédia sobre o instante de uma tragédia. Houve um ataque terrorista no teatro, e dois espetadores, um homem e uma mulher, acabam lado a lado, a fazer de mortos, transidos de medo. Já terá passado o pior? Poderão falar? Nunca se sentiram tão assustados, tão esvaziados, tão vivos, tão próximos de alguém. O que é que isso fará deles? E o que é que eles farão disso?

 
Na sequência dos ataques terroristas em Paris — nomeadamente, o ataque ao Bataclan, uma sala de espetáculos —, o teatro, ou a interpretação ao vivo, aparece aos nossos olhos mais como é: um perigo.
    Em cima do momento, a quente, escrevi uma peça, Grande cena (Teatro Oficina, encenação de Marcos Barbosa), sobre quatro atores, que, no conforto de uma sala, atravessam este nosso tempo de excesso de informação, confusão, desejo e medo. Os atores: Anabela Faustino, Alheli Guerrero, Ivo Alexandre, Marcos Barbosa.
    Escrevi também um ensaio para a revista Granta, Ensaio aberto, onde partia de uma citação da peça Grupo de vanguarda, de Vicente Sanches, para pensar o que era e o que podia ser o teatro hoje. A citação: “Todo o teatro — deve ser terrorista”, “todo o verdadeiro terrorismo — é verdadeiro teatro”.
    Agora é o ponto de chegada desse questionamento. Ou o ponto de interrogação dessa caminhada. Dois espetadores, em perigo de vida no lugar sagrado do teatro, revelam-se — e nós com eles?


O texto é meu, a encenação é do Ivo Alexandre, a interpretação é da Anabela Faustino e do Ivo Alexandre. Produção Ninguém.

sábado, 12 de novembro de 2016

Gente mortal sobe do Alto da Penha até ao Carlos Alberto

Acabámos o ensaio na Penha, o Ivo e a Anabela levaram o Luís de carro à estação das camionetas, e eu e a Paula descemos a pé a rua comicamente íngreme que, todos os dias, como que nos devolve das alturas da imaginação à vida real da cidade. Não sei como, a meio dessa rua sem nome, pusemo-nos a falar de mortos, mortes, morte. Por virmos do país do teatro, talvez, a conversa a partir dessa proibida palavra M não pareceu forçada, nervosa, nem triste. Uma palavra, outra, uma pergunta, outra; e aos poucos fomos encontrando maneira até de sorrir sem fugir do assunto. Despedimo-nos à porta do metro e eu desci as escadas para baixo da terra. Ao chegar à plataforma, vejo um homem caído na linha.
Do lado de lá, no sentido Arroios-Alameda, meio sentado ou a levantar-se, um homem de camisa azul. Imaginei que tivesse caído naquele momento. Do lado de lá da plataforma, chama-o outro homem, dizendo que o ajuda a subir, aproximando-se da beira para o puxar para cima. Mas o da camisa azul nem olha para ele. Levanta-se e põe-se a andar pela linha, em frente, na direção de onde virá o metro. O placard eletrónico diz que falta um minuto. Eu e outras pessoas dizemos-lhe para sair dali, mas o homem parece não ouvir ninguém, continua a andar em direção ao túnel. Retrospetivamente, uma imagem mítica: um mortal como nós avançando para o túnel esfíngico, indiferenciado, absoluto. Despe a camisa enquanto anda, como que a mostrar que está pronto. Ou como uma última pergunta? Uma provocação? Como um desafio? Oh o azul impossível daquela camisa. Um azul aberto, vivo, um azul de céu azul.  
Na plataforma, pessoas a gritar, pessoas a descrever a cena ao telemóvel em tempo real, pessoas paralisadas a ver, a não querer ver, a ver. Éramos todos estranhos uns para os outros e de repente uma coisa tinha-nos juntado: aquele homem ia morrer. Ao meu lado, uma senhora grita, desesperada, “Porquê, porquê”. Pálida e com dificuldades de respiração, prestes a desmaiar. Um rapaz novo diz-lhe para ter calma, e ela continua, “Porquê, porquê”. Trinta segundos, dez segundos. O homem vai morrer, meu Deus. (Deus é uma palavra inventada para estas horas?) Felizmente, acontece o inverosímil. O metro para no túnel. Alguém terá conseguido comunicar com o maquinista, imagino. E o homem ali fica. De pé, de frente para os faróis acesos do metro, de tronco nu, de mãos atrás das costas. Não se mexe. Durante uma eternidade, não se mexe. 
A morte de cada dia nos dai hoje. Escrevo aqui este momento terrível de um sábado de outubro para não me esquecer dele. Não por qualquer tipo de prazer mórbido, mas porque é verdade e me fez olhar com novos olhos para o nosso Henrique IV parte 3. Porque é a morte que nos deixa “dentro” dessa coisa da vida. Perdoem-me se começo a citar personagens assim a meio, sem aviso. O que diz realmente o Henrique da nossa peça é: “Enquanto traduzo, estou lá — estou aqui — estou mesmo dentro da coisa, sabes?” Mas, sim, trago para aqui este suicídio falhado porque acredito que ele pode iluminar a “tradução” que fizemos, da página para a cena. Resumindo: se não lembrarmos o azul que havia no azul dessa camisa largada, todo o azul desbotará. Afinal, talvez seja essa uma das tarefas do teatro, não? Dizer as coisas para ver as coisas? Atravessar a morte para a matar? 
Neste nosso Henrique IV parte 3 não há a morte com M maiúsculo, mas há um fantasma com F de Falstaff. É aí que faço a ligação entre o que se passara e passaria na sala de ensaios da Penha e o que se passou e não passou na estação de metro de Arroios. Também no território desta nossa peça é um espírito antigo, uma figura que (já lá diz Miriam) parece “feita mais de palavras do que de carne”, quem vem concretizar o estar-aqui das personagens mortais, nossas contemporâneas. Um fantasma gordo opondo-se, como que por acidente, aos números magros da crise sempiterna a que chamamos “sistema”. Estar vivo parece um dado mas é um achado — Falstaff e Shakespeare sabem esse segredo. E nós, nestes dias que correm? 
Agora percebo melhor a resistência dos encenadores a escrever sobre os espetáculos. O que se diz diz-se em cena (mal posso esperar para ver isto no TeCA com a contracena do público). E tentar explicá-lo talvez só aumente o ruído, com o risco de se reduzir a violência, a graça, do que os atores criam ao vivo. Mas, se calhar, posso dizer isto: esta é uma comédia que nasce de palavras difíceis e uma tragédia que redunda nos gestos mais prosaicos. Um espetáculo que, com o genial gordo de Shakespeare, quer rir a bandeiras despregadas. “Ora, homem, isto é gente mortal, é gente mortal.”


(texto escrito para o programa do espetáculo "Henrique IV parte 3", no TeCA)

terça-feira, 26 de maio de 2015

telex O Que Eu #4

                                                           

Dia 14 de junho, na Feira do Livro, Quem vem ao mundo! Sim, este Quem aqui de cima, desenhado pela Sara a carvão e mão.
E aparece logo com dois livros: Quem conhece a alegria e Quem espera. Ilustrações de Sara Amado, texto de Jacinto Lucas Pires. Edição: Paulinas Editora.
O lançamento é às 16h, e terá a participação da Catarina Requeijo e do Miguel Fragata, velhos amigos e atores sempre-novos. 



Já está nas livrarias o nº5 da revista Granta, que traz um texto meu, O nome das árvores. Uma não-ficção sobre falhar nomes.
Começa assim: "'Onde é que já se viu um escritor que não sabe o nome das árvores?', perguntou-me o meu pai um dia, na Cornualha, com um sorriso.”




E Os Quais estão a gravar um disco, sob a batuta do grande Ricardo Dias Gomes.
Depois da felicidade que foi o concerto no MusicBox com os Do Amor, farão mais uns concertos por Lisboa juntando canções velhinhas e novíssimas.