quinta-feira, 12 de julho de 2012

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Se juntarmos uma Secretaria de Estado da Cultura que se vê como um Departamento de Propaganda do "Governo de Portugal" a uma visão da literatura e das artes como mero escape de "comédia ligeira", só nos resta um ponto de exclamação, não? No duplo sentido de "vamos a isso" e "vão-se embora". Rua! Rua!

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Um acelerador para a democracia europeia




O problema primeiro não é a moeda. A Europa precisa é de um acelerador de ideias. Partículas de ideias em várias línguas, chocando umas contra as outras, até se fazer luz. Chama-se democracia.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Jornal Local: o autocarro

Estacionado em frente ao Jardim do Príncipe Real, o autocarro tem escrita — na língua do turismo, com as cores da publicidade — a palavra "caos".

terça-feira, 3 de julho de 2012

Muita merda para esse Normal

Força para a Turma de Criação do Teatro Oficina, que hoje às 22h, a cores e ao vivo, tenta safar o meu textinho. Viva o mistério do sempre-nunca!

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Cartão de embarque

Acordo e estou num avião. A hospedeira pergunta-me se quero comer. Tem a boca vermelha e parece uma Kate Winslet desfocada, o que me faz pensar na minha mulher ou "ex-mulher". Título mais estranho para uma mulher tão séria e tão feliz. No sonho vou a caminho de Bruxelas para perguntar à presidente da União porque é que a Europa está a cair. "Deseja mais alguma coisa?" À quarta tentativa, consigo abrir a embalagem transparente, trinco o bolo. Um sabor a pomares de plástico sob longos céus parados. Acordo e estou num avião. A hospedeira pergunta-me se quero comer. Tem os dentes manchados de batom e isso traz-me à memória a minha namorada ou "amante". Se o termo não é muito antiquado, que a rapariga é assustadoramente jovem. Um grande plano fulminante, um flash na noite do quarto de hotel. A verdade é que, depois do divórcio, a nudez desta mulher quinze anos mais nova que eu perdeu todo o perigo. "Obrigado, muito obrigado." No sonho Lisboa é uma cidade arrasada por bombardeamentos aéreos e eu estou parado no que costumava ser uma rua ou uma praça a tentar perceber para que lado é o rio. Dentro do plástico transparente, o bolo castanho é um tumor. Quantas vidas estarão implicadas no facto disto estar aqui, à minha frente, em cima de um tabuleiro da cor do céu? Acordo e estou num avião. A hospedeira pergunta-me se quero comer. Quero comê-la, agarrá-la pelo rabo, morder-lhe o vermelho da boca, chupar-lhe a língua estrangeira até ela não ser mais do que um corpo, mas limito-me a fazer que sim com a cabeça. Pela janela, vejo os campos europeus, as casas, estradas, os rios, tudo diminuindo magnificamente. O raio de sol atravessa o avião como uma viga de ouro. Fecho os olhos. Não tenho ninguém a quem telefonar, ninguém no mundo inteiro, mas a Europa está salva e é uma União a caminho da felicidade. "Será que posso pedir um café?"



(conto escrito para o jornal A Cabra)                     

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Um poema de Luís Vaz de Camões



Na desesperação já repousava
o peito longamente magoado,
e, com seu dano eterno concertado,
já não temia, já não desejava;

quando ũa sombra vã me assegurava
que algum bem me podia estar guardado
em tão fermosa imagem, que o treslado
n'alma ficou, que nela se enlevava.

Que crédito que dá tão facilmente
o coração àquilo que deseja,
quando lhe esquece o fero seu destino!

Oh! deixem-me enganar, que eu sou contente;
que, posto que maior meu dano seja,
fica-me a glória já do que imagino.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Sobre uma fotografia de Irina Rozovsky

Aqui é saudável, uma pessoa sente-se viva aqui. Não sei, mas acho que preciso de ar livre para organizar os pensamentos, é. Aqui sinto-me mais nova, como se ainda namorasse uma qualquer ideia futura de mim. Que ridículo. Mas é verdade, aqui sou uma ideia aberta ainda. Mexo os braços, sofro a brisa no vestido leve, de rapariguinha, ponho isto na boca, travo, sopro. Entre paredes, a minha cabeça é grande demais e toda fechada sobre si mesma. Aqui não. Quer dizer, aqui é que sim. Dentro deste ar puro — tanto oxigénio jovem que se perde inutilmente, gloriosamente —, dentro deste espaço livre as palavras ganham um sentido, uma direção. Aponto-as para ali, já está. As palavras aqui tornam-se opacas, fantasmas de ver, de tocar, quase. Sei exatamente o que quero. Deixem-me rir, peço desculpa. Tenho de rir, adoro vir para aqui quando há sol. É saudável, é fresco. Ideias frescas e boas! Se alguém se põe entre mim e o que eu quero, é melhor que tenha as rezas todas em dia, ah pois. Não é, meu amor?