quinta-feira, 9 de junho de 2011
quarta-feira, 8 de junho de 2011
Depois dos resultados
Na seleção Paulo Bento teve de começar pelo fim, pelos problemas de placar, e nesse domínio as coisas não podiam ter corrido melhor. Foi o que teve de ser, o que ditou “a força das circunstâncias” — para usar um eufemismo em voga na política atual — depois da trapalhada do episódio Queiroz e dos fracassos da seleção em campo. Mas agora é preciso mais, não concordam? A situação da equipa de todos nós tem qualquer coisa a ver com o momento do país de nós todos. Já temos os resultados das eleições, e já conhecemos as três versões do memorando fatal, mas ainda nos falta perceber ao certo qual a visão de futuro que a maioria vencedora defende. Qual o desígnio, onde o fim da rua. É bem conhecida a tática, mas ainda falta definir o que, em futebolês erudito, se chama “a filosofia de jogo”.
No sábado, contra a Noruega, Hélder Postiga marcou um belo golo sem espinhas e pudemos assistir a um punhado de jogadas “interessantes”, mas ainda não se vê uma grande ideia, um estilo, uma marca forte. Uma equipa que quer fazer a diferença e estar entre as melhores do mundo não se pode limitar a confiar no jeitinho dos nossos craques, não pode jogar aos bochechos, entre fintas mirabolantes no ataque e ai-jesus na defesa.
Cristiano estava já com a cabeça nas férias, de chuteiras desligadas. Coentrão anda a forçar a saída para o Real Madrid de uma forma vergonhosa, não percebendo que assim será apenas mais um virtuoso, mas nunca um “grande”, e essa triste fuçanguice reflete-se no futebol jogado, óbvio. E Nani parece ainda não se ter livrado do seu complexo de “segunda estrela”; joga como um super-herói até se dar conta de estar a jogar como um super-herói, e a partir daí começa a complicar, a inventar florinhas em cada toque, cada finta, a encher de palha cada parágrafo.
Ainda assim, acho que o busílis da coisa está no meio-campo. Os três M’s do miolo, Martins, Meireles e Moutinho, são excelentes jogadores e até já funcionaram bem juntos, mas nenhum deles é um líder, um maestro, e isso retira “pensamento” ao futebol das quinas. Quando uma jogada encrava, quando é preciso “mudar de assunto” ou tentar outro “argumento”, não há um lugar onde se possa regressar; não há quem lance o futuro a partir de uma visão geral, quem construa ligações. E o pior é que, depois de Deco, não apareceu ninguém para esse cargo. Não haverá aí nenhum miúdo que se candidate a número 10 da seleção?
(no JN de hoje)
(no JN de hoje)
quarta-feira, 1 de junho de 2011
A ver se nos inspiramos
Domingo, Portugal joga com o Futuro e temo que o empate seja o resultado mais provável. Não é uma finalíssima, mas é o começo de uma importante batalha de qualificação para os Amanhãs de curto, médio e longo prazo. Atendendo aos treinos da campanha eleitoral e aos jogos pré-FMI, perspetiva-se um empate feio e triste, sem golos nem toques de génio, um nulo cinzentão, e a culpa, sim, é de todos nós. Pois, é verdade. Temos adiado o problema uma e outra vez. É nosso o pecado da omissão, por olharmos para o lado, assobiarmos para o alto, passarmos de mansinho pelas questões da vida coletiva. Aos poucos, habituámo-nos à ideia de que o problema é “deles”, que isto da política é um jogo só para “eles”, esses “eles” dos cartazes, esses “eles” que se zangam nos debates televisivos e se alegram nas feiras eleitorais. “Eles”: como se a política fosse do domínio do “virtual”, só outro “espetáculo da realidade” sem qualquer relação com a realidade. A culpa é nossa, sim, que isto — o país, a política, o dia seguinte — é um problema de todos. Agora não há volta a dar-lhe: se queremos ganhar o Futuro, temos de desatar este nosso “nós”. Mas como é difícil, terrivelmente difícil, a escolha de dia 5!...
No meio-campo uns jogam o jogo arrogante do dono da bola, simulando quedas, tentando enganar o árbitro a cada jogada. Outros, colocados mais à frente, não só não têm jeitinho nenhum como estão visivelmente mal treinados, e conseguem a proeza de chutar para a direita, para a esquerda e para o centro e falhar sempre o alvo. Na ala direita, há quem se encoste à linha com habilidade mas pensando apenas na glória individual, marimbando-se para a equipa, para os adversários, para os adeptos, para a justiça do jogo. E, do lado esquerdo, ou se joga em permanente fora-de-jogo ou demasiado à defesa, pensando muito em cortar bolas e muito pouco em fazer golos.
Que, no sábado, a seleção das quinas nos inspire para domingo e para os dias úteis que se seguirão. Coração inteligente, chuteiras afinadas. Ofereçam-nos, por favor, um futebol de ideias fortes e espírito construtivo, jogadas que juntem rigor e abertura, esperança e eficácia, a ver se nos inspiramos para dia 5. A escolha é terrivelmente difícil, não é? Como é que, em Portugal e na Europa, podemos começar a vencer o jogo do nosso futuro? Dia 4, a responsabilidade da seleção é ainda maior que sempre — vai ganhar Portugal?
(no JN de hoje)
(no JN de hoje)
Fantasmas na Escócia
Quis o destino que eu não estivesse em Portugal no dia da final da Taça. Nunca sabemos o que o destino nos reserva; se brinca connosco, se nos tenta ensinar qualquer lição séria, ou até se, como é mais provável (ao menos, segundo a linha de pensamento das escolas groucho-marxistas e woody-allenescas), quer é fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Por um lado, foi bom. Não estando no país, não sofri de perto a lembrança de que não, não era o meu Benfica que estava a ganhar a Taça, e não, não era o meu Benfica que estava a fazer seis golos numa final tão solene, não, não era o meu Benfica, oh não. Por outro lado, foi mau. Foi mesmo mau, foi muito mau. Foi péssimo, sim, como não poderia deixar de ser. Que saudade, caros amigos, que saudades do Benfica Glorioso.
Estava no meio de um vendaval escocês — um vento tão forte que a pedra antiga destas fachadas parecia dançar e ganhar levezas de modernidade, um vento tão louco que as ruas de Edimburgo como que se despassaravam para cima e para os lados, para longe da terra e para fora dos mapas — quando recebi a notícia da final da Taça. De repente já não havia vento nem nada, só aquele jogo com o F.C. Porto em que o Benfica entrou com uma vantagem de dois golos fora e acabou eliminado a olhar para dentro. A olhar para baixo; para a relva pisada, para os atacadores das chuteiras, para o absurdo de tanta ilusão, tanto desperdício. Dizem que a Escócia está cheia de fantasmas. Não sei. Só sei que, nas esquinas de Edimburgo, pelos passeios escuros, vi passar todo o plantel do Benfica em versão cabisbaixa. Não, caros amigos, de uma tristeza assim, não há vento que nos levante.
Não é com este espírito de deixa-andar, não é a fechar os olhos e a acreditar no “destino”, que o Benfica se há de erguer na próxima época. Não é vendendo craques e comprando pontos de interrogação que conseguiremos ganhar. E não se trata apenas de conseguir um campeonato ou uma taça: falta construir uma tradição vitoriosa para o futuro: Eusébio é para a frente! A glória tem de começar na formação dos jogadores de amanhã. O Benfica é o Benfica: não pode nunca ser usado como “montra” europeia para jogadores à espera do “salto”. O Benfica é que é o salto! Bem... isto para dizer que, se queremos ser nós a alegrar a bola amanhã, não podemos confiar nos ventos do destino. Temos de fazer por isso e começar já, já, já. Sim, por favor?
(no JN de quarta-feira passada)
(no JN de quarta-feira passada)
quarta-feira, 18 de maio de 2011
E nós não
Chegou o grande dia dublinesco e nós não estamos lá. Uma final europeia só com portugueses e o Benfica de fora, a ver passar os aviões. Como é que pode ser? Já sei que nunca é boa ideia insistir na tristeza, mas ele há “impensáveis” que não nos deixam pensar em mais nada. O presidente e o treinador do Benfica que digam o que quiserem; a verdade é que este fracasso é lamentável e inesquecível, caros amigos. Um absurdo daqui até às irlandas pelo lado mais distante do planeta-bola. Resta-nos pôr o sorriso entre parêntesis e desejar que, hoje em Dublin, Portugal faça um verdadeiro espetáculo da ocasião. A Europa, sabêmo-lo bem demais, anda aos papéis — que, ao menos, no futebol seja possível jogar ao ataque e furar os “pragmatismos” tristes que nos empatam o futuro.
E, por falar em futuro, senhores mandachuvas do Benfica, que ideias é que têm para a próxima época? Esperemos que sejam falsas as notícias que vão aparecendo e que dão conta de uma mudança total na estrutura da equipa. Se não ouvem os adeptos, ouçam ao menos o Senhor Lapalisse: pior que cometer um erro uma vez, duas vezes, três vezes, é repeti-lo quatro, cinco, seis vezes. Se, depois das saídas de Ramires, David Luiz, Di María, perdemos Aimar, Coentrão, Carlos Martins ou Salvio, muito dificilmente não perderemos a época que aí vem. Não, o pensamento tem de ser ao contrário. A partir da base que já temos, o que é que nos falta para podermos jogar genialmente em todos os tabuleiros? O ano passado cometeu-se o erro de ir para a pré-época a dizer que íamos ganhar a Liga dos Campeões e tudo o mais. Esperemos que este ano não se cometa outro tipo de erro, um pensamento do género “como correu tudo mal, vamos aproveitar para vender os craques e encaixar uns milhões”... Não e não. Há mudanças a fazer, claro, mas para melhor, apontando sempre para o máximo, que é esse o lugar natural do Glorioso. Não podemos vender as joias da coroa e confiar, de olhos fechados, na sorte das contratações. Isso é “pensar pequeno”, senhores dirigentes, e o Benfica é o maior. Até porque, mesmo que a lotaria das contratações corra bem, só com um banco de luxo conseguiremos lutar a sério em todas as competições. Lembrem-se desta época, que nós, os adeptos, não esquecemos. E agora vamos lá ver o jogo.
Que, para o ano, possamos sofrer o que arsenalistas e portistas sofrerão hoje na europas da Irlanda mais portuguesa.
(no JN de hoje)
quarta-feira, 11 de maio de 2011
Fracasso!
Podemos tentar todos os adjetivos que não há como dar volta à tristeza: fracasso retumbante, desarmante, humilhante, estupidificante. Sim, somos todos culpados. Nós, os adeptos, porque nos calámos enquanto não começaram a cair as derrotas. Porque aceitámos durante demasiado tempo a chantagem do “temos de apoiar a equipa”, como se fosse incompatível apoiar e criticar, como se o amor tivesse de ser acéfalo. É ao contrário, já lá diz o poeta. O amor é mais inteligente que a inteligência!
Também têm culpa os jogadores, pois, que demasiadas vezes entraram em campo com o rei na barriga. E o treinador, que foi arranjando desculpas e mais desculpas até se tornar o bombo da festa. Mas vamos ser claros: o primeiro culpado é este presidente.
Depois de termos perdido o Campeonato e a Taça, perdemos vergonhosamente a possibilidade de estar na final da Liga Europa — e o que é que o presidente do Benfica vem dizer, após uns dias de “reflexão”? “Andar em festa distraiu-nos”, “eu próprio também cometi erros”, “na próxima época vou delegar menos”... Terei lido bem? Como é que é possível? Bem sabem que faço tudo para não falar destes futebóis fora do campo, mas desta vez é demais. Depois do brutal fracasso que foi a época benfiquista, o presidente vem pedir “humildade” à equipa, mas para ele próprio não guarda nem um bocadinho. Confessa que o clube viveu numa soltura de festança e conclui, como quem acaba de descobrir a pólvora, que assim não é possível ganhar títulos. Com espantosa magnanimidade, admite que também se enganou aqui e ali, atirando as grandes culpas para os outros. E, por fim, destilando a elegância que se lhe reconhece, avisa que para o ano vai “delegar” menos. É caso para alarme, caros benfiquistas! Precisamos de um sobressalto ético no Glorioso. Ou já nem digo “ético”, um mínimo de sensatez bastava. Se não fizermos barreira, vamos levar mais golos destes.
O futebol não é científico, graças a Deus. Mas ele há coisas que todos veem. Se ficamos sem um Ramires, um Di María ou um David Luiz antes de termos jogadores à altura para esses lugares, o mais certo é não ganharmos nada, claro. Se não temos suplentes que queiramos ver entrar em campo quando é preciso dar um safanão num jogo qualquer, não ganharemos nada de especial, é óbvio. E se, como faz o presidente com estas declarações, juntamos vergonha à vergonha, a vergonha não passa tão cedo, ai não, não.
(no JN de hoje)
(no JN de hoje)
quarta-feira, 4 de maio de 2011
O céu na Pedreira
O domingo algarvio trouxe-nos mais uma desilusão. Outra robertada, agora em versão subtil, e lá vamos nós buscar nova bola triste ao fundo das redes. Não pode ser... Não é nada benfiquista só querer ganhar quando há classificações em jogo. Isso são vistas muito curtas; como tentar reduzir a alma a uma estatística, a uma conta de 2+2. O Glorioso tem de jogar sempre com a alegria de quem quer ganhar, de quem futebola porque sim e não porque tem de ser. Não, o Benfica não joga para o calendário, joga para a história do futuro. Caramba, não há nenhum adjunto que ponha isso em forma de poema para inspirar os jogadores enquanto estes calçam as chuteiras e fazem os seus vudus preparatórios? Brinco, mas é para dizer coisas muito sérias sem me engasgar. No jogo de amanhã — a segunda das três finais para salvarmos a época — precisamos de reaprender a alegria. Bola rápida, corpo inteligente, ideia no golo.
Para este segundo ato na magnífica Pedreira de Souto de Moura, o Benfica enfrenta três questões importantes. A primeira está na baliza. Temos de começar a ganhar logo por aí ou arriscamo-nos a que o céu irlandês nos caia na cabeça. Se me é permitida uma modesta, tímida, óbvia, sugestão, ponham Júlio César ou Moreira. Ou um miúdo qualquer dos juniores que agarre as bolas em vez de as meter na própria baliza. Não é por nada, mas não estar Roberto entre os postes já será um bom começo. Até para ele, que não deve arriscar a carreira com mais frangos fatais.
A segunda questão chama-se Pablo César Aimar Giordano. De grandes artistas como o maestro argentino, diz-se que são “insubstituíveis”; costuma ser apenas uma forma de elogio, mas temo que, no caso do Aimar deste Benfica, o termo seja bem mais literal. A verdade é que — por mau planeamento, falha nas contratações e na formação — não há outro número dez para o Benfica e, como se sabe, o astro argentino não pode jogar amanhã. A versão melhor talvez seja aquela que põe Carlos Martins a organizador, mas não deixa de ser uma adaptação. O português furioso é mais ele próprio no vaivém defesa-ataque do miolo do jogo, não concordam? Bem, vamos ver.
No fim de contas, a questão é a de saber se os jogadores ouvem mais Jorge ou Jesus. Depois da vitória da primeira-mão, enquanto Jorge disse que íamos a Braga defender a eliminatória, Jesus disse que íamos à Pedreira fazer golos. Sim? Sim: ao ataque, por favor!
(no JN de hoje)
quarta-feira, 27 de abril de 2011
*#&”!!!%(
Pois, lá tivemos o prémio de consolação da Taça da Liga. E, mesmo isso, foi conseguido sem brilho nenhum. Devíamos pôr velinhas por aquela chuteira do Paços que, no momento pê do penálti, atirou suave para a defesa do nosso Moreira. Perdoem-me se escrevo em português mais-que-corrente mas ele há coisas que não podem ser ditas em decassílabos: jogámos mal que dói. Estou a falar da Taça da Liga, sim. Sobre a Taça de Portugal, temo que as primeiras palavras que me ocorrem não sejam sequer próprias de um jornal familiar como o JN. Em síntese: *#&”!!!%(.
O jogo com o F.C. Porto foi um descalabro daqueles gregos. Uma intempérie na alma, um remoinho de lágrimas. Não, não exagero — quem é benfiquista sabe o que é que nos custou aquilo. E o pior é que estava à vista de todos. Ai, reticências, reticências... Já lá diz o provérbio latino: errar é humano, insistir no erro é burrice, burrada, burrismo. Aparentemente, não aprendemos nada com o susto de Eindhoven. Entrar a defender um resultado é começar logo de pé atrás, é dar o jogo ao adversário logo de entrada. Deixar Aimar no banco, caro mister, é a pior mensagem que se pode dar — à equipa e ao adversário. Mas não vamos bater mais no ceguinho. Agora temos mas é de nos levantar e olhar em frente.
Óscar Cardozo é a imagem do que tem de mudar neste Benfica. Quando o paraguaio era uma carta fora do baralho, um gigante tímido que imaginávamos a citar Fellini sem querer, dizendo que estava tudo bem, apenas sentia “um pouco de melancolia” — nessa altura gostávamos dele e ele marcava golos. De repente, como que acordando dessa saudade paraguaia, Tacuara estoirava para a baliza e a bola alegrava-se nas redes. Agora não. Agora o homem mudou da melancolia para a birra, a timidez cresceu em arrogância, e assim, claro, os ataques emperram, os passes falham, os chutos vão para a bancada. Cardozo e toda a equipa têm de regressar a si mesmos: humildade e grandes sonhos. Pensar na vitória e jogar para ganhar com chuteiras felizes.
Luisão pôs a ideia em boas palavras: “Ganhar no Benfica é diferente de ganhar em qualquer outro clube.” É este o espírito, senhores! Contra o Braga, temos de arquitetar uma glória sem espinhas, que não há mais espaço para abébias e desculpas de mau pagador. Não: a única maneira de virarmos estes desaires tão *#&”!!!%( é pormos o futebol-espetáculo no cimo da Europa e irmos lá a Dublin receber o caneco.
(no JN de hoje)
quarta-feira, 20 de abril de 2011
Chama-se futebol
Aquela primeira parte com os holandeses, na quinta-feira, parecia o FMI a aterrar na Portela uma e outra vez, uma aterragem em contínuo, um avião de más notícias que não deixasse de aparecer, que nunca parasse de chegar. Que pesadelo, que aperto de alma. Uma coisa é fazer esticar as histórias, dar um certo drama às conquistas; outra coisa bem diferente, caro Maximiliano Pereira, é brincar com a mística. Felizmente o capitão Luisão foi lá à frente e, com um pontapé faraónico, piramidal, inimaginável, pôs os pontos nos ii. Dessas gracinhas, nunca mais, por favor, caros senhores. O Benfica é para ganhar sempre. Com goleadas de vantagem no bolso ou com classificações fechadas à partida, o Glorioso tem de jogar sempre apontado às redes adversárias, com a alegria artística de jogar o jogo pelo jogo, coração de futebol-beleza. Como naquele tiraço do nosso zagueiro-chefe: de costas para a baliza mas com a cabeça na baliza, apertadíssimo pela defesa dos PSV’s, Luisão faz jus ao aumentativo e agiganta-se no ar, uma acrobacia imensa, a chuteira apenas sussurrando à bola a direção certa. E lá vai ela, que espanto, por cima de um defesa saltitante, para o ângulo mais feliz. Viva, alegria, alegria. Contra o Beira-Mar, também atrasámos o futebol uns bons minutos, no domingo também fomos domingueiros boa parte do tempo. Mas lá estavam Carlos Martins e Pablo Aimar e, sim, imagine-se, Sidnei Rechel da Silva Júnior. O português abre para o espaço aberto, Kardec faz-se de extremo-direito e cruza direitinho; Aimar faz uma obra-prima do não-fazer, um ex-líbris da omissão, um poema sem palavras, e, sustendo a respiração, plim, deixa a bola passar; do lado esquerdo da nossa surpresa, aparece o miúdo Sidnei a tocar para o golo. É assim, com vontade de alegria, com gosto de alegrar. Ouçam o que diz o mestre Cruyff: este desporto não se chama “títulos”, não se chama “pontos”, chama-se “futebol”. Temos de fazer o melhor futebol sempre, sempre — somos o Benfica, caramba.
Hoje só isso nos garantirá uma vitória contra o F.C. Porto, que traz a confiança do campeonato e tem Falcão, Hulk e Guarín em grande forma. Não podemos entrar no relvado nem com “cerimónias” táticas, nem “a passear” os dois golos da primeira partida. Temos de pensar o futebol pelo futebol, jogar à bola como miúdos no quintal, na rua, na praia — só assim poderemos ganhar e vencer na Catedral.
(no JN de hoje)
(no JN de hoje)
Jorge contra Jesus
Frente à Naval, a equipa B do Benfica conseguiu reproduzir o fracasso da equipa A contra o F. C. Porto. Claro que o texto foi diferente, mas o subtexto é o mesmo: falta de querença, chuteiras desanimadas, futebol desfocado. No jogo com o F. C. Porto, havia a motivação de qualquer clássico e, contra a Naval, era a oportunidade dos suplentes mostrarem que ideias trazem nos pés. Para lá disso, jogar com a camisola do Benfica — lembremo-nos, por exemplo, de Aimar beijando o emblema depois do golo contra o PSV — é motivação bastante para ganhar, ganhar sempre. A atitude da equipa B no passado domingo é, por isso, de ir às lágrimas. E é também um aviso importante. Num momento em que se fala da saída de alguns craques essenciais, a falta de banco à altura aumenta o nosso susto.
Sim, é verdade, ele há coisas perfeitamente incompreensíveis. Como é que o mister capaz de lançar o Benfica a jogar um glorioso futebol-arte insiste naquele mãos-suaves para a baliza? É um pouco como a conversa sobre mercados e política, FMI’s e votos: não podem ser os passes dos jogadores a determinar as escolhas futebolísticas. É que, já todos vimos, os números “frangam” que é uma coisa doida...
Quanto a Roberto, receio que já não haja muito a dizer. Há ali uma qualquer falha psicológica que o faz claudicar nos momentos mais inconvenientes. Como aquelas pessoas que pensam tanto na gafe que não podem cometer que, mal abrem a boca, o que lhes sai é, claro, a gafe monstruosa. Agora, a culpa também é de quem o põe lá. Quantos mais autogolos é que têm de acontecer para que o treinador conceda que o espanhol não é guarda-redes para o Glorioso? Enquanto Jesus consegue milagres no ataque, velocidade e obras-primas, goleadas europeias, Jorge estraga tudo cá atrás, insistindo em Roberto.
Mas pensemos na parte boa, a ver se damos sorte para a partida de amanhã: aquele golaço de Aimar, desembrulhando o nulo com um tiro canhoto por baixo do defesa e do guardião, um túnel incontroverso e vivíssimo; aquela arrancada de Coentrão, de deixar os holandeses sem vento nos moinhos, e o toque de calcanhar de Salvio lá para dentro; aquela finta do miúdo argentino, um tango de vai-não-vai-e-vai-mesmo, e depois o remate para o terceiro golaço; e, finalmente, aquela revienga barroca de Saviola, uma flor esquerda, inesperada, de pôr a Europa à beira-mar plantada. Em Eindhoven, sim, é para a alegria?
(no JN de 13 de abril)
(no JN de 13 de abril)
sexta-feira, 8 de abril de 2011
quinta-feira, 7 de abril de 2011
quarta-feira, 6 de abril de 2011
Parabéns ao F. C. Porto
Parabéns ao F. C. Porto. São justos campeões, aqui fica o aplauso deste benfiquista. E agora permitam-me que faça um parêntesis, que há coisas que não podem passar no escuro.
Perder é sempre mau. Perder o campeonato em casa contra o rival é, claro, muito mau. Mas aquilo de apagar as luzes e ligar a rega é abaixo dos mínimos e só piora a derrota — uma vergonha triste-triste. Os jogadores e os adeptos do Benfica não mereciam aquilo. Naquele momento final, caros amigos, a nossa Luz é que se apagou; nós é que levámos para casa, presa ao emblema, aquela chuva madrasta. Naquele momento, com aquele gesto imbecil, somámos à derrota matemática uma verdadeira derrota moral.
Felizmente, o Benfica não é aquilo. O Glorioso é, aliás, o exato contrário daquilo, da vil pequenez que está por trás daquele apagão choviscado. O Benfica é outra coisa: é mística, é glória e é grandeza de espírito. Não, não merecíamos aquele mau-perder do final. Mas, futebolisticamente falando — e como custa escrever estas palavrinhas simples que vêm a seguir —, merecemos bem a derrota.
Primeiro, foi o nosso amigo Roberto que voltou a fazer das suas. Na última crónica, falei do “poético pato” de Rui Patrício no jogo contra o Chile. Mas a lentidão de reflexos deste não é nada ao pé do esforçado voluntarismo de Roberto. A nova criação do espanhol no clássico não foi nem pato nem peru e, não, não teve nada de poético. Foi um frango dos mais prosaicos, estilo retro, daqueles que já não se fazem. A centímetros da linha de fundo, Guarín centra. Tudo normal, não se passa nada. Nada? Nada de nada. Pois — até que o nosso guardião de milhões dá um saltinho para o meio e, com as suas suaves manápulas, orienta a bola para a própria baliza.
Primeiro, foi isso... nem sei como lhe chamar. Depois, mil pecados de atos e omissões que podemos juntar sob a ideia de falta de querer e défice de alegria. E, ao descer do pano, aquele pecado maior: o pé de Cardozo no tornozelo de Belluschi... É verdade que, nesta altura do campeonato, era mais fácil para o F. C. Porto estar focado, que o título estava ali à vista. Mas o Benfica tem de encontrar alma para querer ganhar a qualquer hora, em qualquer contexto. Quem não quer suficientemente, habilita-se a perder rotundamente... E é por isso que, amanhã, na Europa, temos de entrar em campo com a grandeza de sempre — contra a mesquinhez de domingo passado.
(no JN de hoje)
quarta-feira, 30 de março de 2011
Portugal a doer
Os tempos andam tramados, tramadíssimos, tramadões. A bronca do PEC IV embrulhou ainda mais a crise, a atitude do Presidente como mero “guarda da vírgula” do regime não ajuda nada, e Portugal parece cada vez mais na beira da falésia, mal equilibrado contra os ventos de fora e de dentro, a tremelicar. Cá em baixo, na praia, de jornais na mão, nós vamos assistindo a isto, suspensos, a ver se, como na anedota, damos ou não o famoso “passo em frente”. Só que, desta vez, a anedota é imensa e trágica - e é sobre nós. Todos nós, pois.
É natural que, neste ambiente, a selecção jogue em modo “bom dia, tristeza”, e um empate a uma bola com o Chile surja como coisa quase boa. Como é óbvio, não é, não pode ser. É que o futuro está aí mesmo a chegar, caros amigos. E pôr todas as fichas na simpatia dos nórdicos é capaz de não ser grande solução...
Tenho cá para mim que o que definiu o amigável deste fim-de-semana não foi tanto o um-zero madrugador, aquela cabeçada esperta de Varela, nem a ausência de Cristiano, nem o poético pato de Patrício no golo de Matías Fernandez. O que marcou aquele empate triste de sábado foi o estado depressivo da nossa alma nacional. Sai dessa, Portugal! Para enfrentar mercados, erros, más fortunas, partidas amigáveis ou “mata-matas”, há uma só via: alegria, alegria. Se entramos em campo com medos à Merkel, seremos atropelados e não haverá “bolas paradas” que nos salvem. Não, tentemos uma abordagem mais lulista-da-silva. Temos de ser da esperança, fazer por isso, pensar alto e positivo, querer sempre mais, mudar melhor - pode ser?
A resposta no jogo de ontem com a Finlândia foi um típico “nim”. Sabemos jogar ao ataque e gostamos de jogar bonito, mas, na hora agá, há tanta suavidade, tanto pé mole, meu Deus. Uma beleza matemática, a jogada do primeiro golo: grande ideia de Martins, um toque simpático de Almeida, e depois, uou!, uma bela trivela de Quaresma a presentear Rúben Micael com a honra de cortar a fita. O caloiro madeirense ainda viria a marcar mais um, graças a um passe “very-very” de Nani. Mas, no entretanto, tanta bola despassarada, tanta complicaçãozinha no momento de assinar a decisão... Os finlandeses abriam alas e nós chutávamos para o lado, ou nem isso. Não: se é para chegarmos ao futuro, temos de levar a alegria até ao fim. Como é que se diz em futebolês, “não ter medo de ser feliz”?
(no JN de hoje)
quarta-feira, 23 de março de 2011
Alegria na gaveta
Um dos maiores defeitos do mister Jorge Jesus é também uma das suas maiores qualidades: a casmurrice. Ou chamem-lhe como quiserem - caturrice, teima, finca-pé, cabeça-dura. O facto é que, sem essa teimosia ensimesmada, Jesus não era ninguém. Só ela explica, por exemplo, que o treinador continue a insistir em Cardozo para carrasco dos nossos penáltis. Quantos já falhou o paraguaio? Mesmo quando marca, como segunda-feira, contra o Paços, ainda o jogo ia no prefácio, dá ideia que é menos um conseguimento próprio que um fracasso do guarda-redes, um capricho do vento, uma magia arquitectónica. Não têm essa impressão? Não sei, talvez seja uma coisa minha. Talvez seja só aquele estilo amedrontado de pôr a chuteira na bola que me encanita especialmente... Mas isto para dizer que a casmurrice também tem um lado bom. Veja-se o caso de Nuno Gomes. A insistência do mister em deixá-lo no banco, oferecendo-lhe não mais que umas migalhinhas de um ou outro final de jogo, salvou o jogador português. Não há pior para um avançado do que a doença da previsibilidade e Nuno Gomes andou lá muito perto, muito tempo. O estatuto de suplente-talismã que Jesus lhe ofereceu esta época deu-lhe um novo foco. Salvou-o. Bem-vindo, Nuno!
Mas... estão a ver isto? O que é isto, caros amigos? Um Picasso? Um James Joyce? O Super-Bacana? Não: isto é Osvaldo Nicolás Fabián Gaitán. Um super-craque da bola. Mas comecemos pelo começo. É uma jogada digna das antologias mais escolhidinhas: a bola rolando do pé uruguaio para o pé paraguaio (na banda sonora, Caetano cantando “soy loco por ti, América/ soy loco por ti de amores”...); Cardozo alegra-se por um segundo e, com uma espécie de sorriso, toca para Gaitán; e o miúdo Nico, de repente, plim. Como é que ele fez aquilo? Plim, acendendo a lâmpada das ideias eternas.
Olha para a baliza, livre de todas as complicações, livre de toda a palha do dia-a-dia - como um sábio ou um poeta, imaginando a verdade. Depois espera, deixa passar um tempo nem longo nem curto, o tempo justo de uma respiração, e faz o gesto. Cumpre a grande lição dos ensaios de dança: não penses. Isto é, pensa mas pensa com o corpo. Plim, e a bola rompendo o ar espesso de Paços de Ferreira, a “capital do móvel”, planando por cima do guarda-redes que voa, esticado, para trás, e descendo para a baliza. Nunca tinha visto nada assim: uma onda arrumando-se na gaveta.
(no JN de hoje)
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