quarta-feira, 18 de maio de 2011

E nós não

Chegou o grande dia dublinesco e nós não estamos lá. Uma final europeia só com portugueses e o Benfica de fora, a ver passar os aviões. Como é que pode ser? Já sei que nunca é boa ideia insistir na tristeza, mas ele há “impensáveis” que não nos deixam pensar em mais nada. O presidente e o treinador do Benfica que digam o que quiserem; a verdade é que este fracasso é lamentável e inesquecível, caros amigos. Um absurdo daqui até às irlandas pelo lado mais distante do planeta-bola. Resta-nos pôr o sorriso entre parêntesis e desejar que, hoje em Dublin, Portugal faça um verdadeiro espetáculo da ocasião. A Europa, sabêmo-lo bem demais, anda aos papéis — que, ao menos, no futebol seja possível jogar ao ataque e furar os “pragmatismos” tristes que nos empatam o futuro.  
E, por falar em futuro, senhores mandachuvas do Benfica, que ideias é que têm para a próxima época? Esperemos que sejam falsas as notícias que vão aparecendo e que dão conta de uma mudança total na estrutura da equipa. Se não ouvem os adeptos, ouçam ao menos o Senhor Lapalisse: pior que cometer um erro uma vez, duas vezes, três vezes, é repeti-lo quatro, cinco, seis vezes. Se, depois das saídas de Ramires, David Luiz, Di María, perdemos Aimar, Coentrão, Carlos Martins ou Salvio, muito dificilmente não perderemos a época que aí vem. Não, o pensamento tem de ser ao contrário. A partir da base que já temos, o que é que nos falta para podermos jogar genialmente em todos os tabuleiros? O ano passado cometeu-se o erro de ir para a pré-época a dizer que íamos ganhar a Liga dos Campeões e tudo o mais. Esperemos que este ano não se cometa outro tipo de erro, um pensamento do género “como correu tudo mal, vamos aproveitar para vender os craques e encaixar uns milhões”... Não e não. Há mudanças a fazer, claro, mas para melhor, apontando sempre para o máximo, que é esse o lugar natural do Glorioso. Não podemos vender as joias da coroa e confiar, de olhos fechados, na sorte das contratações. Isso é “pensar pequeno”, senhores dirigentes, e o Benfica é o maior. Até porque, mesmo que a lotaria das contratações corra bem, só com um banco de luxo conseguiremos lutar a sério em todas as competições. Lembrem-se desta época, que nós, os adeptos, não esquecemos. E agora vamos lá ver o jogo.
 Que, para o ano, possamos sofrer o que arsenalistas e portistas sofrerão hoje na europas da Irlanda mais portuguesa.

(no JN de hoje)

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Fracasso!

Podemos tentar todos os adjetivos que não há como dar volta à tristeza: fracasso retumbante, desarmante, humilhante, estupidificante. Sim, somos todos culpados. Nós, os adeptos, porque nos calámos enquanto não começaram a cair as derrotas. Porque aceitámos durante demasiado tempo a chantagem do “temos de apoiar a equipa”, como se fosse incompatível apoiar e criticar, como se o amor tivesse de ser acéfalo. É ao contrário, já lá diz o poeta. O amor é mais inteligente que a inteligência! 
Também têm culpa os jogadores, pois, que demasiadas vezes entraram em campo com o rei na barriga. E o treinador, que foi arranjando desculpas e mais desculpas até se tornar o bombo da festa. Mas vamos ser claros: o primeiro culpado é este presidente. 
Depois de termos perdido o Campeonato e a Taça, perdemos vergonhosamente a possibilidade de estar na final da Liga Europa — e o que é que o presidente do Benfica vem dizer, após uns dias de “reflexão”? “Andar em festa distraiu-nos”, “eu próprio também cometi erros”, “na próxima época vou delegar menos”... Terei lido bem? Como é que é possível? Bem sabem que faço tudo para não falar destes futebóis fora do campo, mas desta vez é demais. Depois do brutal fracasso que foi a época benfiquista, o presidente vem pedir “humildade” à equipa, mas para ele próprio não guarda nem um bocadinho. Confessa que o clube viveu numa soltura de festança e conclui, como quem acaba de descobrir a pólvora, que assim não é possível ganhar títulos. Com espantosa magnanimidade, admite que também se enganou aqui e ali, atirando as grandes culpas para os outros. E, por fim, destilando a elegância que se lhe reconhece, avisa que para o ano vai “delegar” menos. É caso para alarme, caros benfiquistas! Precisamos de um sobressalto ético no Glorioso. Ou já nem digo “ético”, um mínimo de sensatez bastava. Se não fizermos barreira, vamos levar mais golos destes.
O futebol não é científico, graças a Deus. Mas ele há coisas que todos veem. Se ficamos sem um Ramires, um Di María ou um David Luiz antes de termos jogadores à altura para esses lugares, o mais certo é não ganharmos nada, claro. Se não temos suplentes que queiramos ver entrar em campo quando é preciso dar um safanão num jogo qualquer, não ganharemos nada de especial, é óbvio. E se, como faz o presidente com estas declarações, juntamos vergonha à vergonha, a vergonha não passa tão cedo, ai não, não.
   
(no JN de hoje)

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O céu na Pedreira

O domingo algarvio trouxe-nos mais uma desilusão. Outra robertada, agora em versão subtil, e lá vamos nós buscar nova bola triste ao fundo das redes. Não pode ser... Não é nada benfiquista só querer ganhar quando há classificações em jogo. Isso são vistas muito curtas; como tentar reduzir a alma a uma estatística, a uma conta de 2+2. O Glorioso tem de jogar sempre com a alegria de quem quer ganhar, de quem futebola porque sim e não porque tem de ser. Não, o Benfica não joga para o calendário, joga para a história do futuro. Caramba, não há nenhum adjunto que ponha isso em forma de poema para inspirar os jogadores enquanto estes calçam as chuteiras e fazem os seus vudus preparatórios? Brinco, mas é para dizer coisas muito sérias sem me engasgar. No jogo de amanhã — a segunda das três finais para salvarmos a época — precisamos de reaprender a alegria. Bola rápida, corpo inteligente, ideia no golo.
Para este segundo ato na magnífica Pedreira de Souto de Moura, o Benfica enfrenta três questões importantes. A primeira está na baliza. Temos de começar a ganhar logo por aí ou arriscamo-nos a que o céu irlandês nos caia na cabeça. Se me é permitida uma modesta, tímida, óbvia, sugestão, ponham Júlio César ou Moreira. Ou um miúdo qualquer dos juniores que agarre as bolas em vez de as meter na própria baliza. Não é por nada, mas não estar Roberto entre os postes já será um bom começo. Até para ele, que não deve arriscar a carreira com mais frangos fatais.
A segunda questão chama-se Pablo César Aimar Giordano. De grandes artistas como o maestro argentino, diz-se que são “insubstituíveis”; costuma ser apenas uma forma de elogio, mas temo que, no caso do Aimar deste Benfica, o termo seja bem mais literal. A verdade é que — por mau planeamento, falha nas contratações e na formação — não há outro número dez para o Benfica e, como se sabe, o astro argentino não pode jogar amanhã. A versão melhor talvez seja aquela que põe Carlos Martins a organizador, mas não deixa de ser uma adaptação. O português furioso é mais ele próprio no vaivém defesa-ataque do miolo do jogo, não concordam? Bem, vamos ver.
No fim de contas, a questão é a de saber se os jogadores ouvem mais Jorge ou Jesus. Depois da vitória da primeira-mão, enquanto Jorge disse que íamos a Braga defender a eliminatória, Jesus disse que íamos à Pedreira fazer golos. Sim? Sim: ao ataque, por favor!
   
(no JN de hoje)

quarta-feira, 27 de abril de 2011

*#&”!!!%(

Pois, lá tivemos o prémio de consolação da Taça da Liga. E, mesmo isso, foi conseguido sem brilho nenhum. Devíamos pôr velinhas por aquela chuteira do Paços que, no momento pê do penálti, atirou suave para a defesa do nosso Moreira. Perdoem-me se escrevo em português mais-que-corrente mas ele há coisas que não podem ser ditas em decassílabos: jogámos mal que dói. Estou a falar da Taça da Liga, sim. Sobre a Taça de Portugal, temo que as primeiras palavras que me ocorrem não sejam sequer próprias de um jornal familiar como o JN. Em síntese: *#&”!!!%(. 
O jogo com o F.C. Porto foi um descalabro daqueles gregos. Uma intempérie na alma, um remoinho de lágrimas. Não, não exagero — quem é benfiquista sabe o que é que nos custou aquilo. E o pior é que estava à vista de todos. Ai, reticências, reticências... Já lá diz o provérbio latino: errar é humano, insistir no erro é burrice, burrada, burrismo. Aparentemente, não aprendemos nada com o susto de Eindhoven. Entrar a defender um resultado é começar logo de pé atrás, é dar o jogo ao adversário logo de entrada. Deixar Aimar no banco, caro mister, é a pior mensagem que se pode dar — à equipa e ao adversário. Mas não vamos bater mais no ceguinho. Agora temos mas é de nos levantar e olhar em frente.
Óscar Cardozo é a imagem do que tem de mudar neste Benfica. Quando o paraguaio era uma carta fora do baralho, um gigante tímido que imaginávamos a citar Fellini sem querer, dizendo que estava tudo bem, apenas sentia “um pouco de melancolia” — nessa altura gostávamos dele e ele marcava golos. De repente, como que acordando dessa saudade paraguaia, Tacuara estoirava para a baliza e a bola alegrava-se nas redes. Agora não. Agora o homem mudou da melancolia para a birra, a timidez cresceu em arrogância, e assim, claro, os ataques emperram, os passes falham, os chutos vão para a bancada. Cardozo e toda a equipa têm de regressar a si mesmos: humildade e grandes sonhos. Pensar na vitória e jogar para ganhar com chuteiras felizes. 
Luisão pôs a ideia em boas palavras: “Ganhar no Benfica é diferente de ganhar em qualquer outro clube.” É este o espírito, senhores! Contra o Braga, temos de arquitetar uma glória sem espinhas, que não há mais espaço para abébias e desculpas de mau pagador. Não: a única maneira de virarmos estes desaires tão *#&”!!!%( é pormos o futebol-espetáculo no cimo da Europa e irmos lá a Dublin receber o caneco.

(no JN de hoje)

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Chama-se futebol

Aquela primeira parte com os holandeses, na quinta-feira, parecia o FMI a aterrar na Portela uma e outra vez, uma aterragem em contínuo, um avião de más notícias que não deixasse de aparecer, que nunca parasse de chegar. Que pesadelo, que aperto de alma. Uma coisa é fazer esticar as histórias, dar um certo drama às conquistas; outra coisa bem diferente, caro Maximiliano Pereira, é brincar com a mística. Felizmente o capitão Luisão foi lá à frente e, com um pontapé faraónico, piramidal, inimaginável, pôs os pontos nos ii. Dessas gracinhas, nunca mais, por favor, caros senhores. O Benfica é para ganhar sempre. Com goleadas de vantagem no bolso ou com classificações fechadas à partida, o Glorioso tem de jogar sempre apontado às redes adversárias, com a alegria artística de jogar o jogo pelo jogo, coração de futebol-beleza. Como naquele tiraço do nosso zagueiro-chefe: de costas para a baliza mas com a cabeça na baliza, apertadíssimo pela defesa dos PSV’s, Luisão faz jus ao aumentativo e agiganta-se no ar, uma acrobacia imensa, a chuteira apenas sussurrando à bola a direção certa. E lá vai ela, que espanto, por cima de um defesa saltitante, para o ângulo mais feliz. Viva, alegria, alegria.     Contra o Beira-Mar, também atrasámos o futebol uns bons minutos, no domingo também fomos domingueiros boa parte do tempo. Mas lá estavam Carlos Martins e Pablo Aimar e, sim, imagine-se, Sidnei Rechel da Silva Júnior. O português abre para o espaço aberto, Kardec faz-se de extremo-direito e cruza direitinho; Aimar faz uma obra-prima do não-fazer, um ex-líbris da omissão, um poema sem palavras, e, sustendo a respiração,  plim, deixa a bola passar; do lado esquerdo da nossa surpresa, aparece o miúdo Sidnei a tocar para o golo. É assim, com vontade de alegria, com gosto de alegrar. Ouçam o que diz o mestre Cruyff: este desporto não se chama “títulos”, não se chama “pontos”, chama-se “futebol”. Temos de fazer o melhor futebol sempre, sempre — somos o Benfica, caramba. 
Hoje só isso nos garantirá uma vitória contra o F.C. Porto, que traz a confiança do campeonato e tem Falcão, Hulk e Guarín em grande forma. Não podemos entrar no relvado nem com “cerimónias” táticas, nem “a passear” os dois golos da primeira partida. Temos de pensar o futebol pelo futebol, jogar à bola como miúdos no quintal, na rua, na praia — só assim poderemos ganhar e vencer na Catedral.

 (no JN de hoje)

Jorge contra Jesus

Frente à Naval, a equipa B do Benfica conseguiu reproduzir o fracasso da equipa A contra o F. C. Porto. Claro que o texto foi diferente, mas o subtexto é o mesmo: falta de querença, chuteiras desanimadas, futebol desfocado. No jogo com o F. C. Porto, havia a motivação de qualquer clássico e, contra a Naval, era a oportunidade dos suplentes mostrarem que ideias trazem nos pés. Para lá disso, jogar com a camisola do Benfica — lembremo-nos, por exemplo, de Aimar beijando o emblema depois do golo contra o PSV — é motivação bastante para ganhar, ganhar sempre. A atitude da equipa B no passado domingo é, por isso, de ir às lágrimas. E é também um aviso importante. Num momento em que se fala da saída de alguns craques essenciais, a falta de banco à altura aumenta o nosso susto.
Sim, é verdade, ele há coisas perfeitamente incompreensíveis. Como é que o mister capaz de lançar o Benfica a jogar um glorioso futebol-arte insiste naquele mãos-suaves para a baliza? É um pouco como a conversa sobre mercados e política, FMI’s e votos: não podem ser os passes dos jogadores a determinar as escolhas futebolísticas. É que, já todos vimos, os números “frangam” que é uma coisa doida...
Quanto a Roberto, receio que já não haja muito a dizer. Há ali uma qualquer falha psicológica que o faz claudicar nos momentos mais inconvenientes. Como aquelas pessoas que pensam tanto na gafe que não podem cometer que, mal abrem a boca, o que lhes sai é, claro, a gafe monstruosa. Agora, a culpa também é de quem o põe lá. Quantos mais autogolos é que têm de acontecer para que o treinador conceda que o espanhol não é guarda-redes para o Glorioso? Enquanto Jesus consegue milagres no ataque, velocidade e obras-primas, goleadas europeias, Jorge estraga tudo cá atrás, insistindo em Roberto.
Mas pensemos na parte boa, a ver se damos sorte para a partida de amanhã: aquele golaço de Aimar, desembrulhando o nulo com um tiro canhoto por baixo do defesa e do guardião, um túnel incontroverso e vivíssimo; aquela arrancada de Coentrão, de deixar os holandeses sem vento nos moinhos, e o toque de calcanhar de Salvio lá para dentro; aquela finta do miúdo argentino, um tango de vai-não-vai-e-vai-mesmo, e depois o remate para o terceiro golaço; e, finalmente, aquela revienga barroca de Saviola, uma flor esquerda, inesperada, de pôr a Europa à beira-mar plantada. Em Eindhoven, sim, é para a alegria?

(no JN de 13 de abril)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Parabéns ao F. C. Porto

Parabéns ao F. C. Porto. São justos campeões, aqui fica o aplauso deste benfiquista. E agora permitam-me que faça um parêntesis, que há coisas que não podem passar no escuro.
Perder é sempre mau. Perder o campeonato em casa contra o rival é, claro, muito mau. Mas aquilo de apagar as luzes e ligar a rega é abaixo dos mínimos e só piora a derrota — uma vergonha triste-triste. Os jogadores e os adeptos do Benfica não mereciam aquilo. Naquele momento final, caros amigos, a nossa Luz é que se apagou; nós é que levámos para casa, presa ao emblema, aquela chuva madrasta. Naquele momento, com aquele gesto imbecil, somámos à derrota matemática uma verdadeira derrota moral.
Felizmente, o Benfica não é aquilo. O Glorioso é, aliás, o exato contrário daquilo, da vil pequenez que está por trás daquele apagão choviscado. O Benfica é outra coisa: é mística, é glória e é grandeza de espírito. Não, não merecíamos aquele mau-perder do final. Mas, futebolisticamente falando — e como custa escrever estas palavrinhas simples que vêm a seguir —, merecemos bem a derrota. 
Primeiro, foi o nosso amigo Roberto que voltou a fazer das suas. Na última crónica, falei do “poético pato” de Rui Patrício no jogo contra o Chile. Mas a lentidão de reflexos deste não é nada ao pé do esforçado voluntarismo de Roberto. A nova criação do espanhol no clássico não foi nem pato nem peru e, não, não teve nada de poético. Foi um frango dos mais prosaicos, estilo retro, daqueles que já não se fazem. A centímetros da linha de fundo, Guarín centra. Tudo normal, não se passa nada. Nada? Nada de nada. Pois — até que o nosso guardião de milhões dá um saltinho para o meio e, com as suas suaves manápulas, orienta a bola para a própria baliza. 
Primeiro, foi isso... nem sei como lhe chamar. Depois, mil pecados de atos e omissões que podemos juntar sob a ideia de falta de querer e défice de alegria. E, ao descer do pano, aquele pecado maior: o pé de Cardozo no tornozelo de Belluschi... É verdade que, nesta altura do campeonato, era mais fácil para o F. C. Porto estar focado, que o título estava ali à vista. Mas o Benfica tem de encontrar alma para querer ganhar a qualquer hora, em qualquer contexto. Quem não quer suficientemente, habilita-se a perder rotundamente... E é por isso que, amanhã, na Europa, temos de entrar em campo com a grandeza de sempre — contra a mesquinhez de domingo passado.

(no JN de hoje)

quarta-feira, 30 de março de 2011

Portugal a doer

Os tempos andam tramados, tramadíssimos, tramadões. A bronca do PEC IV embrulhou ainda mais a crise, a atitude do Presidente como mero “guarda da vírgula” do regime não ajuda nada, e Portugal parece cada vez mais na beira da falésia, mal equilibrado contra os ventos de fora e de dentro, a tremelicar. Cá em baixo, na praia, de jornais na mão, nós vamos assistindo a isto, suspensos, a ver se, como na anedota, damos ou não o famoso “passo em frente”. Só que, desta vez, a anedota é imensa e trágica - e é sobre nós. Todos nós, pois.
É natural que, neste ambiente, a selecção jogue em modo “bom dia, tristeza”, e um empate a uma bola com o Chile surja como coisa quase boa. Como é óbvio, não é, não pode ser. É que o futuro está aí mesmo a chegar, caros amigos. E pôr todas as fichas na simpatia dos nórdicos é capaz de não ser grande solução...
Tenho cá para mim que o que definiu o amigável deste fim-de-semana não foi tanto o um-zero madrugador, aquela cabeçada esperta de Varela, nem a ausência de Cristiano, nem o poético pato de Patrício no golo de Matías Fernandez. O que marcou aquele empate triste de sábado foi o estado depressivo da nossa alma nacional. Sai dessa, Portugal! Para enfrentar mercados, erros, más fortunas, partidas amigáveis ou “mata-matas”, há uma só via: alegria, alegria. Se entramos em campo com medos à Merkel, seremos atropelados e não haverá “bolas paradas” que nos salvem. Não, tentemos uma abordagem mais lulista-da-silva. Temos de ser da esperança, fazer por isso, pensar alto e positivo, querer sempre mais, mudar melhor - pode ser?
A resposta no jogo de ontem com a Finlândia foi um típico “nim”. Sabemos jogar ao ataque e gostamos de jogar bonito, mas, na hora agá, há tanta suavidade, tanto pé mole, meu Deus. Uma beleza matemática, a jogada do primeiro golo: grande ideia de Martins, um toque simpático de Almeida, e depois, uou!, uma bela trivela de Quaresma a presentear Rúben Micael com a honra de cortar a fita. O caloiro madeirense ainda viria a marcar mais um, graças a um passe “very-very” de Nani. Mas, no entretanto, tanta bola despassarada, tanta complicaçãozinha no momento de assinar a decisão... Os finlandeses abriam alas e nós chutávamos para o lado, ou nem isso. Não: se é para chegarmos ao futuro, temos de levar a alegria até ao fim. Como é que se diz em futebolês, “não ter medo de ser feliz”?
   

(no JN de hoje)

quarta-feira, 23 de março de 2011

Alegria na gaveta

Um dos maiores defeitos do mister Jorge Jesus é também uma das suas maiores qualidades: a casmurrice. Ou chamem-lhe como quiserem - caturrice, teima, finca-pé, cabeça-dura. O facto é que, sem essa teimosia ensimesmada, Jesus não era ninguém. Só ela explica, por exemplo, que o treinador continue a insistir em Cardozo para carrasco dos nossos penáltis. Quantos já falhou o paraguaio? Mesmo quando marca, como segunda-feira, contra o Paços, ainda o jogo ia no prefácio, dá ideia que é menos um conseguimento próprio que um fracasso do guarda-redes, um capricho do vento, uma magia arquitectónica. Não têm essa impressão? Não sei, talvez seja uma coisa minha. Talvez seja só aquele estilo amedrontado de pôr a chuteira na bola que me encanita especialmente... Mas isto para dizer que a casmurrice também tem um lado bom. Veja-se o caso de Nuno Gomes. A insistência do mister em deixá-lo no banco, oferecendo-lhe não mais que umas migalhinhas de um ou outro final de jogo, salvou o jogador português. Não há pior para um avançado do que a doença da previsibilidade e Nuno Gomes andou lá muito perto, muito tempo. O estatuto de suplente-talismã que Jesus lhe ofereceu esta época deu-lhe um novo foco. Salvou-o. Bem-vindo, Nuno!
Mas... estão a ver isto? O que é isto, caros amigos? Um Picasso? Um James Joyce? O Super-Bacana? Não: isto é Osvaldo Nicolás Fabián Gaitán. Um super-craque da bola. Mas comecemos pelo começo. É uma jogada digna das antologias mais escolhidinhas: a bola rolando do pé uruguaio para o pé paraguaio (na banda sonora, Caetano cantando “soy loco por ti, América/ soy loco por ti de amores”...); Cardozo alegra-se por um segundo e, com uma espécie de sorriso, toca para Gaitán; e o miúdo Nico, de repente, plim. Como é que ele fez aquilo? Plim, acendendo a lâmpada das ideias eternas. 
Olha para a baliza, livre de todas as complicações, livre de toda a palha do dia-a-dia - como um sábio ou um poeta, imaginando a verdade. Depois espera, deixa passar um tempo nem longo nem curto, o tempo justo de uma respiração, e faz o gesto. Cumpre a grande lição dos ensaios de dança: não penses. Isto é, pensa mas pensa com o corpo. Plim, e a bola rompendo o ar espesso de Paços de Ferreira, a “capital do móvel”, planando por cima do guarda-redes que voa, esticado, para trás, e descendo para a baliza. Nunca tinha visto nada assim: uma onda arrumando-se na gaveta.

(no JN de hoje)

segunda-feira, 21 de março de 2011

O cúmulo da humilhação

Assaltarem-te o carro e levarem tudo menos o exemplar do livrinho que tu escreveste com tanto amor e carinho.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Matematicamente Europa

Até acho que Jesus fez bem em lançar a segunda equipa no jogo com o Portimonense. Estes jogos contra o “matematicamente possível” têm tudo para ser uma bela chatice - assim, ao menos, adianta-se algum trabalho para a frente. Mas parece-me que o resultado da experiência diz muito do que faltou ao Glorioso deste ano no campeonato. Mesmo dando de barato que os suplentes são para entrar um, dois, três de cada vez (e não aos molhos de dez ou onze), um Benfica B tem a obrigação de dominar os clubes do fim da tabela. Pois é, um dos grandes equívocos deste Benfica está sentado no banco. Não, não estou a falar de Luís Filipe. Digo “em geral”. Se virmos bem, temos grandes craques titulares, Aimar, Saviola, Luisão, Coentrão, Gaitán, e depois o quê? Um banco com “muito futuro”... Para uma equipa que luta em diferentes batalhas e sempre para a vitória, isto não basta. Não, é essencial ter um pouco mais de “presente”. Chuteiras que não duvidem na hora agá. 
E a hora é esta, já amanhã - a nossa hora europeia. Na primeira mão, na Catedral, os nossos amigos franceses entraram a marcar. Um golo aos cinco minutos, quando mentalmente ainda estávamos no balneário a decidir se usávamos as caneleiras de cerimónia ou as de todos os dias. Uma água fria daquelas de pôr chuva nos corações mais sensíveis. Mas bem lhes mostrámos de que massa é que somos feitos. 
Carlos Martins inventa uma bola vivíssima por cima dos cidadãos de Paris; sem parar, Maxi recebe com o peito e chuta para o golo do recomeço. Já lá diz Carlos Paião, “há zero a zero, há cem a cem”. De repente, era outra vez possível ganhar e vencer. E sim: acabado de entrar em campo, Aimar faz uma finta só com os olhos e toca a redondinha para Jara. O miúdo Franco Daniel puxa a bola para o lado, espera até ao limite e, cercado por três PSG’s, remata. Espantado com o que o seu pé acabou de imaginar, até cai na relva. E é já sentado que assiste ao milagre. Golo, ganhámos, reviravolta de alegria. Que amanhã, em Paris, saibamos ser assim - inteligentes na alma e espertos no corpo.
A minha táctica? Jogar com o futuro mais perto do presente, em pressão alta, cheios dessa confiança que o passado nos passa. Sob os felizes augúrios de tantos campeões eternos - e, para dar sorte, deixem-me dizer onze nomes: Bento, Mozer, Humberto Coelho, Veloso, Pietra, Shéu, Coluna, Chalana, Simões, Mantorras, Eusébio -, vamos golear na Europa.

(no JN de hoje)

quinta-feira, 10 de março de 2011

Vamos lá ganhar a Europa

Tinha de acontecer, mais tarde ou mais cedo. Por mais optimistas que nos esforçássemos por ser; por mais que, antes de cada partida, arejássemos os corações com boa ilusão e saudades do futuro; por mais que as inspirações dos craques benfiquistas nos pusessem pontos de exclamação na alma; por mais que o futebol-maravilha nos fizesse imaginar impossíveis - sabíamos que tinha de acontecer, mais tarde ou mais cedo. Não dá para “crer” e “querer” tanto tempo contra números de pedra, e a diferença pontual para o primeiro lugar parecia tão pesadona como a grande pedra do estádio do Braga. Sim, no fundo, sabíamos que tinha de acontecer. E, no entanto, caros amigos, como é triste. 
Alguns dirão que a nossa entrada domingueira anunciou logo o fracasso. De facto, notou-se demais a falta de Pablo Aimar, glorioso maestro, arquitecto e filósofo da equipa. No belo estádio que Souto Moura compôs em parceria com a Paisagem, jogávamos pelo manual, sem ousadia, sem rasgo. O que, em futebolês, se diz “jogar para o calendário”. Também faltava Salvio, o mais original dos extremos, um repentista ligado à terra. E, em geral, mexíamo-nos sem estamina, sem espírito. Carregávamos um cansaço sentimental - não é impunemente que se ganha jogos seguidos nos últimos segundos, em estilo de drama épico -, as pernas desconectadas do coração. Outros dirão que o que nos tramou foi aquela cartolina vermelha que atirou García, o nosso espanhol da táctica, para o arquitectónico balneário. Eu cá acho que a nossa derrota começou no golo de Saviola. 
 Não me interpretem mal. Foi um golo felicíssimo: uma alegria, como pusemos aquela “bola parada” em movimento para dentro da baliza bracarense. O chuto d’El Conejo é mais difícil do que parece e merece mais do que o rótulo técnico de “recarga”. Foi um tiraço com a bola tropeçada no ar, um chuto na única fracção de segundo possível, pelo único espacinho livre. Um óptimo golo, sim. Mas, a partir daí, aburguesámos. Caímos na tentação do “futebol confortável” e pagámos as consequências. 
Que triste, pois - mas olhemos para a frente. De alguma forma, esta derrota em Braga até nos alivia e liberta. Agora podemos dar-nos ao luxo de não ser nem optimistas nem pessimistas. Digamos com Almada Negreiros que agora não há nenhum mal-entendido entre nós e a vida, e vamos lá ganhar a Liga Europa. Com futebol-alegria, sim, estádios de pé, corações ao alto.

(no JN de ontem)