Quando se junta no caldeirão a cassete, o maquiavelismo, o politicamente correto e o tecnocratês, e se deixa tudo a cozer em lume brando durante semanas com umas pitadas de “salvação nacional” por cima, o mais certo é termos o caldo entornado. Só ruído e mais ruído. O facto é que os partidos têm andado demasiado tempo a falar dobrado. A coligação PP-PSD diz “irrevogável” e “estabilidade” quando quer dizer “oportunismo” e “austeridade”. O PS diz “salvação nacional” quando quer dizer “tática”. O PCP diz “patriótico” em vez de “cartilha”. E o BE grita “pacto de agressão” quando devia andar a traduzir o que ouve quando ouve “Europa”. De maneira que vamos assim, passeando sob as cagarras, assobiando para o lado, confiando que, por não pensarmos nisso, o céu não nos cairá na cabeça.
quarta-feira, 17 de julho de 2013
terça-feira, 16 de julho de 2013
Reportagem 9
"E acontece o seguinte: quando estranho uma pintura é aí que é pintura. E quando estranho a palavra é aí que ela alcança o sentido. E quando estranho a vida aí é que começa a vida." (Clarice Lispector)
segunda-feira, 15 de julho de 2013
sábado, 13 de julho de 2013
Sobre uma fotografia de Enric Vives-Rubio
A figura à direita no sofá olha em frente com a oca solenidade de quem está no solário, à espera, a trabalhar para o bronze. À esquerda, o homem grisalho fecha-se sobre si mesmo. Mais à esquerda, outros dois homens olham para alguma coisa atrás da câmara, aproveitando qualquer pretexto para não enfrentarem a questão sobre a mesa. Já a mulher junto a eles parece fazer um esforço contra a náusea que não sabe de onde vem. No extremo oposto o homem de fato escuro olha para os pés das pessoas em frente pensando no tempo. Quanto tempo já terá passado, quanto tempo faltará ainda. Um pouco mais para o meio, temos o anfitrião. Um homem de fato cinzento, estranhamente descontraído. Sentado de perna cruzada e como que atravessado por um relógio de pé, sorri para dentro. No chão vê uma ideia de que ninguém desconfia e isso diverte-o por um instante. Este instante que a fotografia fixou. Quanto tempo. Sobre todo o grupo, uma imensa pintura em tons de castanho. Uma imagem confusa, monstruosa, triste.
quinta-feira, 11 de julho de 2013
Portugal precisa de uma coligação Syriza?
Chamem-lhe como quiserem, mas precisamos de uma coligação à esquerda que queira salvar, renovar, reinventar o sonho europeu — dizendo não à austeridade, e dizendo sim à solidariedade. Lutando aqui, na Europa que vai de Atenas a Berlim e de Dublin a Lisboa, pela transparência, pela democracia — e por uma União digna desse nome.
quarta-feira, 10 de julho de 2013
terça-feira, 9 de julho de 2013
segunda-feira, 8 de julho de 2013
domingo, 7 de julho de 2013
A democracia é revogável?
A fórmula cozinhada pelo PSD e pelo CDS-PP configura, só não vê quem não quer ver, um autêntico golpe palaciano. “Palaciano” como em “Palácio das Necessidades”. Nesta versão o líder do CDS-PP, conhecido ex-irrevogável, torna-se uma espécie de primeiro-ministro de facto e Passos Coelho converte-se na rainha da Inglaterra do Governo e da coligação. Talvez para os próprios seja divertido brincar à dança das cadeiras, agora o país é que não suporta mais isto. E tem todas as razões para não suportar.
Até terça-feira, pelo menos, Portugal fica entre parêntesis, mas tudo indica que o Presidente abençoará esta solução mais que pífia — por respeitinho aos “mercados”, por medo da democracia. O que, a concretizar-se, será gravíssimo. Aliás, olhando para trás, é fácil ver uma ligação direta entre o “pânico” com a perspetiva de eleições, que surgiu instantaneamente, como uma reação alérgica, dir-se-ia, após a demissão do ministro dos Negócios Estrangeiros, e o “não fui eleito coisíssima nenhuma” de Vítor Gaspar. É isto? A democracia está suspensa, senhor Presidente?
sexta-feira, 5 de julho de 2013
The true actor
Perdoem-me, só uma pequena interrupção para publicidade. É que O verdadeiro ator vai ser editado na América. Imaginem!
Um excerto saiu agora na revista Ninth Letter (ed. Philip Graham).
E, dia 9, lá estarei eu no Disquiet a ler um excerto da tradução (um belo trabalho de Jaime Braz e Dean Thomas Ellis, edição de Jeff Parker). É às 18.30h, no Centro Nacional de Cultura.
quinta-feira, 4 de julho de 2013
Dar nomes às coisas
É essencial ler Pacheco Pereira: "A demonização das eleições é um dos traços autoritários mais preocupantes dos dias de hoje."
Num protetorado perto de si
Um país chantageado por um maquiavélico de terceira linha. Um carreirista impreparadíssimo à frente dos destinos do Estado. Uma ausência no lugar do poder moderador. Resgate? Sim, chama-se democracia: eleições já!
quarta-feira, 3 de julho de 2013
Construir a mudança
Ricardo Costa diz bem ao dizer que "a carta de demissão de Vítor Gaspar foi um beijo de morte de um
narcisista absoluto" e "a escolha de Maria Luís uma loucura que ficará na
história".
Pacheco Pereira tem razão ao afirmar que "é preciso muito cuidado em aceitar pelo seu valor facial tudo o que se anda por aí a dizer". E que, por trás da demissão do ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, estão taticismos eleitorais.
E esta crónica de Daniel Oliveira roça o profético.
Venham as eleições. Agora falta saber como é que a esquerda vai construir uma alternativa, uma esperança, para começar a mudar a Europa a partir deste nosso lugar de séculos e futuro.
terça-feira, 2 de julho de 2013
segunda-feira, 1 de julho de 2013
Que livro lerias contra esta coligação da austeridade?
Na Praça Taksim, em Istambul, algumas pessoas protestam a ler.
No Largo do Carmo, em Lisboa, protestarias lendo o quê? O Livro do Desassossego de Bernardo Soares, O Nome das Coisas de Sophia de Mello Breyner Andresen, A Febre de Wallace Shawn?
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