quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A resignação do Papa, por exemplo

Devo confessar que este Papa sempre me pareceu um enigma demasiado frio e fechado. O primeiro gesto de Bento XVI que verdadeiramente me sobressaltou foi este da sua resignação. Sim, do modesto ponto vista deste escritor, a história de Joseph Ratzinger/Bento XVI começaria agora. Uma história em busca desse momento interior, misterioso, porventura intraduzível, em que alguma coisa acontece na alma do sábio alemão — e o faz decidir assim. Deixar de ser Papa. Pois, talvez esteja a puxar a brasa à minha sardinha, mas parece-me que o jornalismo de hoje devia ter espaço para este tipo de histórias. Sabemos os factos. Mas, para vermos as interrogações com o máximo de clareza, precisamos também de imaginação. Será?

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Itália leva demasiado à letra postal de O que eu gosto de bombas de gasolina

Quando, há uns dias, pensando apenas neste retângulo à beira-mar plantado, falei de um partido de humoristas, estava longe de imaginar um sucesso tão meteórico como o de Beppe Grillo. 25%! E, no entanto, o resultado das eleições italianas prova a ideia-base desse meu postal português — se os partidos não se reinventam enquanto espaços de liberdade e abertura, o descontentamento encontrará outros canais, mais ou menos populistas, mais ou menos eficazes, mais ou menos engraçados, mais ou menos perigosos.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Aimar contra a troika

Ontem ouvi alguém dizer que o Aimar tinha de sair no fim do ano porque qualquer coisa e "a massa salarial"... Logo a seguir, plim, o grande Pablito faz isto. Só para lembrar que o futebol joga-se é com a cabeça. O argentino mais português do mundo merece todo o nosso aplauso, ponto final, ponto de exclamação, parágrafo. Mesmo sentado no banco, lesionado, constipado, é ele o porta-bandeira da mística benfiquista. Ofereçam-lhe mais um ano, dois, dez, ofereçam-lhe a cadeira de treinador e de presidente. E não tragam a conversa contabilística para o relvado da catedral. Haja respeito, por favor.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Bons sinais

São bons sinais estes protestos em forma de canto ou de piada. Mostram que, mesmo debaixo de tanta crise e desesperança, o país tenta responder à falta de horizontes com a inteligência da imaginação. Na hora justa, um ato poético vale mais que mil indicadores. As faturas de amor-com-amor-se-paga, as Grândolas que nos hão de levar à vitória, tudo isto é poesia em movimento. Poesia, exato — e não há nada mais real. Nem nada mais perigoso para os podres poderes.
Agora é preciso que, no terreno das ideias, no campo da palavra-ação — no lugar da política! —, haja gente capaz de seguir o exemplo. Não, não estou a pedir que se construa uma alternativa a esta coligação entre tecnocracia arrogante e direita populista com um partido de cantores e humoristas. O que quero dizer é que é preciso outra clareza, outra franqueza, outra ousadia, e novas vozes. Que, no chão nobre e difícil da política (cada vez mais difícil e por isso cada vez mais nobre?), possam surgir gestos assim imaginativos e abertos. O país da austeridade é guardado pela linguagem monocórdica: temos de a romper com palavras todas futuras.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Um poema de W.H. Auden


MUSÉE DES BEAUX ARTS


About suffering they were never wrong,
The Old Masters: how well they understood
Its human position; how it takes place
While someone else is eating or opening a window or just walking dully along;
How, when the aged are reverently, passionately waiting
For the miraculous birth, there always must be
Children who did not specially want it to happen, skating
On a pond at the edge of the wood:
They never forgot
That even the dreadful martyrdom must run its course
Anyhow in a corner, some untidy spot
Where the dogs go on with their doggy life and the torturer's horse
Scratches its innocent behind on a tree.

In Brueghel's Icarus, for instance: how everything turns away
Quite leisurely from the disaster; the ploughman may
Have heard the splash, the forsaken cry,
But for him it was not an important failure; the sun shone
As it had to on the white legs disappearing into the green
Water; and the expensive delicate ship that must have seen
Something amazing, a boy falling out of the sky,
Had somewhere to get to and sailed calmly on.



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Telegrama para o Parlamento Europeu

Caros deputados, a proposta de orçamento 2014-2020 não é só curta, é de vistas curtas. Uma proposta eurocética!... Um gesto forte e claro no Parlamento, o primeiro palco da democracia, poderia ajudar a desatar o nó em que a Europa se vem embrulhando. Aqui fica o pedido simples deste cidadão: votem contra. 

sábado, 16 de fevereiro de 2013

A hora Tacuara

Tenho de confessar que sempre olhei para o Cardozo com o oblíquo coração dos desconfiados. O Tacuara mexe-se em câmara lenta, falha bolas aparentemente fáceis, dispara remates de distâncias irrealistas, e nunca desata aquele ar de tristice metafísica. Não sei, talvez seja da altura. As chuteiras paraguaias do nosso avançado estão bem assentes na relva mas dá a impressão que a cabeça está demasiado lá para cima, no alto da mais alta montanha, onde o ar é rarefeito e frio. Apesar disto, apesar de todo o meu pé-atrás em relação ao artilheiro pé-canhão, aquela descida aos infernos no jogo com o Nacional, foi uma supresa, um choque, um susto desagradabilíssimo.
Mas hoje olho para o avançado com um coração novo, mais redondito, caramba. Alguém que sai do poço fundo assim tão rápido, de um dia para o outro, com tanta modéstia e elegância, não é só alto, imenso, gigante, é mesmo, como é que se diz?, grande. Aquele golo na Alemanha, aquilo foi de pastelaria chique. Uma simulação de baile sentando o primeiro leverkursenista, e depois aquele toque leve, de massa folhada, por cima do guarda-redes. Na relva nevada o paraguaio cabeça-no-ar brilhou, brilhante, viva, palmas. Já sabemos que não vai poder jogar amanhã contra a Briosa. É uma pena. Que, na planície solar da Luz, os colegas se lembrem dele. Na sempre temível hora agá, não é para tremer, ouviram? Basta levantar devagarinho as sobrancelhas e, ah!, largar a bola contra as redes.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Almada, hoje, 21.30h

Almada recebe hoje um espetáculo de realidade. É na chamada sala experimental do Teatro Municipal Joaquim Benite, às 21.30h. Com o super, magistral, genial Ivo Alexandre!


 Adalberto Silva Silva — um espetáculo de realidade é a alma de Adalberto Silva Silva em formato televisivo. Adalberto é o célebre desconhecido, o triste homem comum, um tipo que de tão normalzinho se apalhaça dos modos mais surpreendentes. Um cidadão que, neste país pobre e maravilhoso, quer juntar-se a uma cidadã para se descobrir por inteiro. Em resumo, a personagem do mais adalbértico dos anti-heróis portugueses sai agora do papel do teatro para o oxigénio da realidade. Uma comédia em formato de bolso sobre o desejo, o sonho e os chamados problemas práticos. É a sério, sim, e é para rir, pois. Para rir a sério?

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Cá de casa

Se sou assaltado por dúvidas de fé em relação ao país, basta ver uns minutos de As coisas lá de casa para ficar logo de bem com a minha alma lusa. O filme de José Miguel Ribeiro é para crianças dos 0 aos 6, mas dá uma bela lição aos mais cotas. Que bom ver-se uma produção nacional juntando assim originalidade e clareza, rigor e humor, inteligência e imaginação. Que bom saber que, afinal, sim, os santos da casa podem fazer milagres. É que não é fácil ser assim simples. As coisas lá de casa: música nada óbvia que as crianças querem logo cantar; tanta peripécia feita com tão pouco; desenhos mesmo animados, vivos riscos. Não tenhamos dúvidas, caros amigos. Coisas destas fazem mais por Portugal que uma procissão de mil cacilheiros atulhados de lustres.