terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Vida e arte, arte e vida

Ontem à tarde, ao ver isto:



lembrei-me, quem não se lembrou?, disto:



À noite, foi ao contrário. Ao ler um conto de J.F. Powers, onde um franciscano se prepara para morrer fechando os olhos que continuam a ver ("obscuramente") flocos de neve a cair, um texto belíssimo, duro, feliz, onde um franciscano lê a outro a história de um caso antigo — as pessoas estão reunidas para escolher um novo bispo; vendo um homem que regressa do campo com um pombo em cima da cabeça, não hesitam, é ele o escolhido —, só me lembrava daquilo. Os olhos do homem no canto do ecrã, enquanto o Papa anunciava a resignação em latim.


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Os jornais (saudade do futuro)

O narrador de A lenda do santo bebedor de Joseph Roth — uma voz irónica e fria como um fantasma de fato-e-gravata e chapéu de coco — diz-nos a certa altura: "Como é do conhecimento de todos os vagabundos, os jornais aquecem." Ora aqui está. É este, precisamente, o problema dos jornais nesta nossa era virtual. Online, os jornais não aquecem nem arrefecem. Não, não é trocadilho, ou não só, é uma constatação. Falando apenas dos jornais portugueses, o que este leitor vê todos os dias são autocarros à frente da baliza. Em crise há anos, o melhor que ocorre a quem manda nos jornais, aparentemente, é pôr tudo à defesa. Ou baixando muito o nível e matando marcas de referência, ou entrando em negação e desistindo de conquistar novos leitores, ou apostando tudo em "maquilhagens" (leia-se design) e "austeridades" (leia-se despedimentos). Não há soluções mágicas, claro. Mas acho que a solução de futuro está em arriscar no ataque. Ou seja, construir um jornal com uma clara visão do mundo (cultural, política, estética), de tal forma que ser leitor desse jornal seja afirmar alguma coisa. Fazer parte de alguma coisa. Como usar um emblema dizendo "eu sou isto", não sou aquilo. Bem sei que há problemas práticos tremendos. A publicidade no online ainda anda longe de ser suficiente. E o sistema seguido por alguns jornais portugueses para agarrar leitores fiéis (bloquear a opinião) também não é o melhor, digo eu. Menos má é a solução de alguns títulos estrangeiros, como o New York Times: depois de tantos artigos/ mês, bloqueiam o acesso e convidam o leitor a assinar o jornal. Mas se o jornal não for um mero apanhado de factos (já os temos todos grátis na net) nem um saco de opiniões gregas e troianas (ai o nacional-porreirismo...), se o jornal não tiver medo de afirmar uma visão clara, diferenciada, do mundo que temos e do que mundo que queremos ter, um caminho que, entre tanto ruído, nos leve ao coração de cada dia — se conseguirmos um jornal assim, os tais problemas práticos serão apenas isso, "problemas", e não "o problema", este drama, isto que agora nos parece pouco menos (não é?) do que um abismo intransponível. Neste país em crise, fazem tanta falta, ainda mais do que sempre — de novo, de novo: jornais frescos e quentes!

sábado, 9 de fevereiro de 2013

É já na sexta-feira!

Dias 15, 16 e 17, o Adalberto Silva Silva estará em Almada. É na sala experimental do Teatro Joaquim Benite (o Municipal de Almada). Apareçam! Gargalhadas contra a ☹*#$!?"☔ da austeridade.


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

O novo é para sempre


Para mal dos meus pecados, separo sempre a amizade do resto. Por isso, estou mesmo à vontade para dizer que, se o assunto é pintura, o Tomás Cunha Ferreira é um dos poucos, raros, verdadeiramente grandes dos nossos dias. E mais: a pintura que ele agora mostra na Alecrim 50 é o ponto mais alto do seu caminho libérrimo. Uma arte que se faz de vida e ideias-na-vida. Telas que explodem e se abrem para alguma coisa que, não deixando de ser pintura, é ainda também escultura, teatro, poesia, dança. E isto aparecendo sem a frieza da premeditação, sem qualquer tique de modismo esperto, sem nenhum resquício de estratégia e auto-não-sei-quê, como é habitual vermos aos trambolhões por aí, nos prémios e nos jornais, na arte do regime. Não, aqui, mal ou bem, é tudo verdade. A pintura demorou estes anos todos a chegar até este ponto, precisou deste tempo exato para se soltar assim, e agora, de olhos bem abertos, podemos concluir que não podia ser de outra maneira. Mas claro que não é necessário pôr palavras nisto. Pasmados de alegria a olhar para estas telas-coisas-pinturas, basta-nos o movimento que elas guardam. Dança quieta, suspensa, mesmo antes de começar. Dança de pegar com a mão. Há anos, fiz uma música para falar da pintura do Tomás: "Humana e não natural/ como, por exemplo, ideias/ coreografar ideias/ com, por exemplo, amor." Em coerência, devia agora fazer uma desmáquina de silêncio para falar destes novos achados. Pintura que acharia impossível: começa sempre que para ela se olha, é ao mesmo tempo diferente de tudo e capaz de uma franca abertura a tudo, pensamento que realmente dança, poesia que sabe conversar. É quase pecado entrar numa sala e ver tanto sim junto. Viva, viva. O novo é para sempre, e isto é.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Nós, a democracia

Na rua e nos jornais a atenção está toda virada para as finanças, a economia, o dinheiro. E, no entanto, o nó do problema está noutro lado. Chama-se: política. E o desatar do nó tem o mesmo nome: política. Receio que, por uma vez, não seja o escritor a querer pôr as palavras acima dos números. É a mais pura verdade. 
A propósito disto, Daniel Oliveira escreve no Expresso um artigo apontando a fragilidade do Estado como causa principal da falta de qualidade (usemos um eufemismo) de grande parte da classe política atual. Estou de acordo com o diagnóstico geral — "interesses com muito mais poder do que o Estado", défices de "democratização das instituições internacionais ou transnacionais", "atomização da sociedade", partidos incapazes de construírem "narrativas que determinem visões políticas e ideológicas coerentes" —, mas não me parece que o grande remédio esteja na reconstrução de um Estado forte à antiga. Por trás desta visão, espreita a ideia de que o contrato social só pode assentar numa espécie de chantagem. Chamem-me ingénuo, chamem-me utópico, mas acredito que não tem de ser assim. 
Isto dito, é claro que, na discussão sobre a necessidade de um Estado social a sério, estou com o Daniel Oliveira contra as arrogantes visões tecnocráticas de Vítor Gaspar, contra os vagos arroubos modernizantes de Passos Coelho, contra as ideologias pronto-a-vestir do PP. Mas acho que, infelizmente, a cura para a qualidade da política não tem remédio tão fácil. Não há um frasco de Estado forte que nos livre deste mal. É preciso mais, é preciso um milagre. Chama-se: democracia. Tem de ser a democracia, temos de ser nós, o povo, a mudar isto. É um daqueles momentos em que não adianta pedir um gesto a Maomé. Só voltando a acreditar na política, só ressonhando a política com ideias e paixão. Isto agora é um trabalho para a Montanha.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Jornal Local: tempo e temperatura

Na Calçada da Estrela, na esquina da Assembleia da República, o técnico de mobiliário urbano sobe ao escadote para compor o placar do tempo e da temperatura. Terá sido um parafuso a menos? Jornal Local não possui informações que confirmem ou desmintam tal hipótese. O facto é que as horas não caíram na cabeça do técnico por um milímetro, uma nesga, por um triz.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Contracena

Acabo de ler a tese que Marta Cunha escreveu sobre o meu teatro. É uma grande honra ver o meu trabalho assim sob a luz das ideias. E é também um sobressalto e uma grande ajuda. Ainda mais quando o espaço crítico nos meios de comunicação regride à vista desarmada. A tese, Uma coreografia da palavra: a relação entre texto e cena na dramaturgia de Jacinto Lucas Pires, percorre diferentes fases (!) da minha escrita de teatro, tendo como eixos as peças Figurantes e Silenciador. Algumas coisas eu já sabia ou pressentia, mas outras foram mesmo novidade — ou antes, como nos momentos maiores de uma história bem contada, surpresas com sentido. Por exemplo, a ideia de que a última "ondulação" da minha escrita (a partir de Octávio no mundo até agora?) se carateriza por enredos mais estruturados, maior "interferência no real" (o "mundo" do título dessa pecinha que escrevi para os PANOS da Culturgest) e por uma presença recorrente da família (escrever com três crianças à volta talvez tenha alguma coisa a ver com isto). Os meus agradecimentos públicos à Marta Cunha que atravessou os meus loucos textos sem enlouquecer, à Alexandra Moreira da Silva que orientou este trabalho rigoroso e claro e, já agora, à Faculdade de Letras da Universidade do Porto. A conversa sobre a necessária ligação entre a academia e a vida real também passa por aqui. Agora é esquecer tudo e voltar aos meus fantasmas de carne e osso. O quê, "vida real", terei ouvido bem? Isso só existe no teatro, não é?

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

A nossa doença das palmeiras

Na minha distração, só há uns dias é que dei conta. As palmeiras do Príncipe Real estão cabisbaixas, paradonas ou pura e simplesmente desaparecidas. Ao que parece, há uma explicação científica, um nome, uma razão, e não é um fenómeno só dali. É uma doença conhecida, dizem-me, e muito espalhada. As palmeiras de Lisboa estão a morrer a partir de cima. Tão triste.
Já o disse noutros lados, sou um que-raio-de-escritor, que nem sei os nomes das árvores. Mas o das palmeiras sempre soube. São mais que árvores para mim. Coisas vivas de alegria, altezas de todo o desejo, com aquelas jubas em explosão contínua, sempre me deram um bom sorriso. Sempre senti que faziam disto uma Europa diferente – no melhor dos sentidos – uma Europa quente e aberta – e não será esse o nosso desígnio no frio mundo fechadão das troikas e da desigualdade?
Há aqueles versos de Sophia: 'Quando Helena Lanari dizia o "coqueiro"/ O coqueiro ficava muito mais vegetal”. Contra as linhas duras do casario, contra os céus monocromáticos, basta uma palmeirinha e tudo fica logo mais humano. Tenho todo o respeito pela ciência e pelos cientistas, mas talvez não seja coincidência esta doença das palmeiras ter aparecido agora. Talvez seja mais um sintoma da desesperança em que Portugal se deixou prender. Quem sabe, se reaprendermos a sonhar, se voltarmos a sonhar um país feliz, se quisermos querer de novo, as palmeiras recomecem a partir de baixo.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Pescar à vista

Conheço o Filipe Condado aí há uns dois mil anos. É um amigo que sabe que estar presente dos modos mais simples e discretos. Até que, de repente, sobe a uma árvore altíssima, ventosa, só para sacar uma fotografia especial ou para fazer uma qualquer piada acrobática. Conheço-o há muito tempo, e ainda assim não foi sem surpresa que descobri estas suas novas imagens. A Sala do Veado, na Rua da Escola Politécnica, está cheia de fotografias mansas. Mansas mas vivas, mansas e vivas. Não é um trabalho de acrobata mas de pescador. Alguém que se equipa de paciência e vai para a realidade pescar expressionismo abstrato no que está à vista. Paredes, jornais, sombras, lanços de escada contra paredes riscadas, tanto mistério.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Inesperar

Não, também eu não acredito em Sebastiões que um belo dia saem do nevoeiro para nos salvar. Mas só alguém muito desatento ou muito casmurro não vê que a aparente hesitação de António Costa em avançar para a liderança do PS é uma péssima notícia para o país. Não sou do PS; já votei PS, Bloco de Esquerda e, em desespero de causa, como nas últimas eleições, em branco. Mas, no estado de coisas em que estamos, com Passos-Portas de um lado e Seguro do outro, a crise alimenta-se de si própria. Porque sem uma visão, uma esperança, uma ideia de futuro, podemos andar aqui a cortar despesas durante décadas que só daremos passos atrás. Por isso precisamos de António Costa. 
À esquerda do PS, imagino que os taticistas do costume estejam apreensivos. Um líder socialista mais forte pode conquistar apoios ao Bloco e ao PCP. Por outro lado, digo eu, um líder com ideias próprias também é capaz de uma outra abertura. O compromisso para uma união à esquerda só é realizável com interlocutores capazes. Líderes que, sendo senhores das suas cabeças, possam dar suficiente espaço aos outros para encontrarem consensos. E, se do lado do PS atual, faltam ideias e clareza — ideologia! —, do lado do Bloco e do PCP (sonhem, sonhem...) falta europeísmo. 
A solução para a embrulhada em que estamos passa por construir uma nova Europa a partir de um novo espírito — uma espécie de “descomplexo de culpa”. Não podemos continuar a pensar a política nestes termos de “nós vs. a Europa”. Somos europeus! É o que somos. É este o nosso lugar no mundo, o nosso ponto de vista. Sair do pântano da crise em direção ao futuro exige que lutemos por uma nova Europa a partir de um novo patriotismo europeu — patriotismo europeu, sim. Escrevo-o sem aspas, que não podemos mais ter medo das palavras. Só saindo das frases feitas, das palavrinhas certinhas, só indo para lá dos lugares comuns, poderemos pôr a mexer este triste presente estático. Hesitação é tudo o que não precisamos para começar a mudar isto, caro António Costa. Tem de ser agora.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Segredo

Correr no campo e correr na cidade são desportos diferentes. Correr em Lisboa, pelo menos, parece-me uma modalidade mais próxima das artes marciais ou da luta livre do que propriamente do fundo, meio-fundo. Bem me ensinava quem me ensinou: “Onde é que está o segredo do boxe? Nos pés!”
Nas manhãs de inverno é duro pôr a máquina-corpo a mexer. Os músculos frios, ensonados, distraídos a pensar em férias, camas, livros, lugares interiores. E a cabeça, pois, ainda demasiado leve para conseguir ser uma locomotiva convincente. Acabámos de acordar, estamos esvaziados de sonhos. O primeiro passo é tremendo. E o segundo, o terceiro, e os seguintes, até que o balanço valha por si. É difícil, duroduro. Mas o mais complicado talvez ainda seja romper a barreira de estranheza/ sensação de ridículo/ o quê? que há quando se corre fora dos locais próprios. As pessoas ocupadas que nos olham com olhos de pôr na ponta do nariz. As pessoas ocupadas que fingem não nos olhar com sobrancelhas iguais a corvos mesquinhos. As pessoas ocupadas em não fazer nada, olha a merda.
Ah sim, temos de nos desviar das prendas dos cães. E pedir licença na passadeira para atravessar. Mas vai, vai. Há que ser feliz e não ligar meia, ligar só às pequenezas mais verdadeiras, às mais altas almas, continuar em frente como diz a canção do Vasco Cardoso. Será que hoje cumpro a meia hora a que me propus? Será que em maio estou apto para a meia maratona, caramba? Isto de aprender a ser cota tem muito que se lhe diga. Mas não penses demais. Complicar é batota. Cala-te, vai. Cala-te e corre. “Onde é que está o segredo do boxe?”